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'Amores Imaginários' parodia modernidade apaixonada

20 out 2010
12h38
atualizado às 13h09
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Carol Almeida

Pense num filme moderninho, casaquinhos da moda, vestidinhos retrô. Pensou? Agora duplique. Ou triplique. O fato é que o canadense Amores Imaginários , de Xavier Dolan, selecionado este ano da mostra Un Certain Regard, em Cannes, é certamente um título redondo para a turma que curte um combo cinema à noite + festa com trilha sonora indie na casa de algum conhecido (ou desconhecido) publicitário.

No entanto, o que poderia ser um sem fim de clichês sobre jovens em crises existenciais de 140 caracteres acaba se transformando em uma divertida brincadeira e uma ironia sobre uma verdade que atravessa gerações e gerações de jovens: se apaixonar pode até ser um caminho sem volta, mas se você olhar de lado, sempre haverá uma esquina para dobrar.

A história sobre mais um triângulo amoroso que se funda na admiração quase religiosa de duas pessoas pelo terceiro vértice pode entrar facilmente na lista dos melhores ménàge a trois do cinema contemporâneo. E o mérito disso é 90% de Xavier Dolan, um jovem de 21 anos que responde não apenas pela direção e roteiro do filme, como vive um dos personagens apaixonados dessa história. Dolan, que interpreta no cinema desde criança, tem aqui seu segundo trabalho de direção e consegue com Amores Imaginários criar uma obra extremamente bem-humorada, leve e cheia de papéis de parede.

No filme, ele é Xavier, gay, bem vestido e carente. Xavier é melhor amigo de Marie (Monia Chokri), heterossexual, bem vestida e carente. Em uma dessas festinhas na casa de um amigo em comum, eles conhecem e se apaixonam por Nicolas (Niels Schneider), um menino de sorriso absolutamente encantador, um olhar entre o triste e o sexy e cachinhos dourados que completam esse figurino David de Michelangelo.

Nicolas é aquele tipo com quem você já cruzou em alguma festa: ele adora ser observado, dissecado e sugado pelos olhos de quem o coloca em um pedestal. E enquanto joga todo seu charme de menino ingênuo e cru em sua beleza, se despede de seus admiradores com uma única certeza: de que ele está sempre apaixonado pelo seu próprio reflexo.

Dolan joga câmeras lentas, filtros de cores fortes, fotografia de blogs afetivos e uma trilha sonora obviamente e fantasticamente indie. Tudo em cena é pensado para ser "cool" e esperto, da armação dos óculos até a xícara de porcelana, passando por uma inevitável máquina de escrever. Por cima dessa estética da modernidade que paira sobre nós, diálogos inteligentes e criativos. Como se não bastasse, a história central do triângulo amoroso é intercalada por depoimentos do tipo "reality show" de outros jovens relatando suas desventuras amorosas com confissões do tipo: "e quando finalmente vem um novo mail na minha caixa de entrada, a mensagem não é dele, é da Amazon".

Tudo isso poderia pesar contra o filme, afinal de contas, as referências são excessivas e pagariam um preço alto para a construção dos personagens não fossem eles todos paródias de si próprios. Ou, como diria uma personagem: "você não se apaixona por uma pessoa, mas sim pelo conceito dela".

Amores Imaginários pode até tocar em um ou outro ponto fraco de sua memória amorosa, mas ele está longe de ser um drama metido a sabido. Aliás, o filme é sabido (e sábio) justamente porque não faz drama. Trata-se de uma comédia de costumes, a História da Vida Privada tal como a conhecemos depois de algumas doses de vodca, maços de cigarro e mensagens no Facebook.

O que nos leva a uma nova conclusão que atravessa gerações e gerações de cronistas: viver é saber se apaixonar, mas para sobreviver a essas paixões, só mesmo com senso de humor.

SERVIÇO
Os Amores Imaginários , de Xavier Dolan
País: Canadá
Duração : 97 minutos
Classificação: 16 anos

HORÁRIOS :
29/10/2010 - 23:50 - UNIBANCO ARTEPLEX 1
01/11/2010 - 22:50 - CINESESC
02/11/2010 - 19:40 - ESPAÇO UNIBANCO 3
04/11/2010 - 20:20 - CINE LIVRARIA CULTURA 1






'Amores Imaginários' também é destaque na Mostra de SP
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Foto: Divulgação
Terra

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