Cinema

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28 de dezembro de 2012 • 10h19 • atualizado em 02 de Outubro de 2014 às 15h31

"Beira fazer um filme chulo", diz diretor de 'De Pernas Pro Ar 2'

Roberto Santucci é diretor da comédia brasileira 'De Pernas Pro Ar 2'
Foto: Páprica Fotografia/Divulgação
  • Beatriz Carrasco
    Direto de São Paulo
 

São comuns as comédias protagonizadas por homens e suas conversas em mesas de bar, com as mulheres como tema principal. A comédia De Pernas Pro Ar 2 - que chega aos cinemas nesta sexta-feira (28) -, no entanto, muda o jogo e traz Alice (Ingrid Guimarães) com um discurso aberto sobre sexo, orgasmo, vibradores, trabalho e família. Roberto Santucci, que novamente dirige a sequencia do longa lançado em 2010, falou ao Terra sobre o cuidado em abordar o tema para não causar desconforto no público.

“É um desafio, porque às vezes você beira fazer um filme chulo, que incomoda, mas fomos muito bem sucedidos no primeiro. O público curtiu o filme, tivemos espectadores desde velhinhas até crianças”, comentou o diretor. Apesar de o sexo ser um tema forte na narrativa, ele aparece mais em segundo plano do que em seu precursor. Isso porque a protagonista finalmente alcançou o orgasmo e agora é uma executiva bem-sucedida no ramo de sex shops, que enfrenta um colapso nervoso por não conseguir conciliar tudo.

Produzido por Mariza Leão - Meu Nome Não É Johnny (2008) -, De Pernas Pro Ar 2 tem no elenco Maria Paula, Bruno Garcia, Eriberto Leão, Denise Weinberg, Cristina Pereira, Christine Fernandes, Tatá Werneck, entre outros.

Terra - Como surgiu a ideia de tratar não só de um tema delicado como a sexualidade feminina, como também de abordá-lo de um jeito aberto, que quebra tabus?
Roberto Santucci -
Acho que isso sempre nos empolga: trabalhar com tabus, falar sobre questões que as pessoas não falam muito, sobre a mulher moderna... Até porque isso gera uma identificação com o público, o que é fundamental nas nossas histórias e filmes. O nosso núcleo criativo, que sou eu, o Marcelo Saback e o Paulo Cursino, além da Mariza Leão, gosta muito de se arriscar. A gente busca sempre fazer histórias que emocionam, que têm verdade, que discutam temas que estão no inconsciente do público, mas com muito humor.

Terra - O De Pernas Pro Ar conquistou o público com o sexo como tema central. A sequência também tem essa abordagem, mas em um segundo plano. Por que decidiram mudar uma fórmula que já havia dado certo?

Roberto - No De Pernas Pro Ar 2 precisamos descobrir novas situações e discussões interessantes, como a da mulher de sucesso, o modo como ela administra isso e como influencia na vida do casal. (A mudança) Foi muito baseada em cima do personagem da Alice. O que é importante para ela? A Alice descobriu o orgasmo e se tornou uma profissional do ramo. Achamos que o próximo desafio dela, o passo natural, seria querer abraçar o mundo com as pernas, pois ela tem muito sucesso e dinheiro, então tudo seria “fácil”, que é o modo como muitas pessoas pensam. O barato também é recriar dentro desses personagens situações que vivemos no dia a dia, para podermos olhar para ele como se estivéssemos olhando para nós mesmos. As questões que escolhemos foram as que achamos pertinentes para o personagem da Alice, mais do que fazer um gancho comercial, como o do sexo de novo.

Terra - Como foi o processo de observação da mulher moderna para compor a Alice?
Roberto -
No De Pernas Pro Ar 1 eu realmente tinha essa preocupação (de retratar a mulher partindo da observação). Na hora que os roteiristas entram no filme, eles levam isso à frente. No 2, isso já começou nas mãos deles. Quando a Mariza Leão teve a ideia de fazer a sequencia, de ir para Nova York, ela gerou a discussão sobre “o que trazer” (para o roteiro). Foram tentados vários caminhos, três tipos de discussões, e esse trabalho veio mais dos roteiristas. É lógico que estou contribuindo, esse foi um trabalho feito por quatro cabeças.

Terra - A ideia de dar sequencia à história apareceu ainda durante as filmagens do primeiro filme?
Roberto -
No final da filmagem, a Mariza já estava sonhando e vendo a possibilidade do segundo. Ela nunca tinha feito comédia, mas experimentou e curtiu, ficou satisfeita com o filme.

Terra - Antes do De Pernas Pro Ar, a Ingrid nunca havia protagonizado um filme. Você já pensaram nela enquanto escreviam o roteiro, ou a escolha aconteceu quando o texto já estava finalizado?
Roberto -
Existe uma pequena dúvida. Parece que um dos roteiristas a sugeriu, mas me lembro perfeitamente da Mariza sugerindo a Ingrid como protagonista. Nesse momento, me pareceu uma ideia muito boa, porque eu sabia que os dois roteiristas eram especialistas em Ingrid Guimarães. Um deles tinha trabalhado com ela na peça Cócegas e o outro tinha escrito vários episódios do (programa da TV Globo) Sob Nova Direção. Eles a conheciam muito bem e sabiam escrever piadas para a embocadura dela, então isso me pareceu uma coisa muito acertada, que acabou se provando verdade. Acho que, além do talento que ela tem de sobra, foi importante fazer um roteiro moldado para ela, para ela brilhar onde é melhor.

Terra - E os outros atores do elenco, como foram escolhidos?
Roberto -
Foi um processo longo, em que vimos várias pessoas, cogitamos, discutimos, e a Mariza também participou disso, fazendo sugestões. Em alguns casos, fizemos testes para o primeiro filme. No segundo, a coisa já estava mais encaminhada, mas mesmo assim teve leitura de roteiro. Foi muito gratificante, demos muita sorte, o elenco todo está muito bem no filme.

Terra - Comparando com o primeiro filme, a fotografia da sequência está diferente. Qual foi a intenção dessa mudança?
Roberto -
O que mudou do primeiro para o segundo, fotograficamente falando, foi o fotógrafo. Mas os dois têm muita experiência no cinema brasileiro, de um talento incrível e de uma generosidade enorme. É óbvio que o segundo filme se beneficiou de um orçamento mais confortável, de um plano de filmagem com mais tempo pra se criar, e isso se traduziu em profissionais mais bem pagos. Eles me davam a possibilidade de poder criar, de colocar uma câmera no teto, tínhamos uma equipe duplicada. Além do mais, fomos a Nova York buscar uma cenografia, um plano de fundo extremamente cinematográfico, já que estamos acostumados a ver tantos filmes em Nova York. É muito fácil apontar a câmera e ter uma imagem com que seu inconsciente já está acostumado. Então acho que, através disso tudo, conseguimos ter uma fotografia que ganhou um diferencial.

Terra - O final do filme abre a oportunidade para uma sequência. Já existem planos para dar continuidade ao projeto?
Roberto -
Existe uma grande vontade, as pessoas já começam a cogitar. No primeiro, isso já aconteceu. Se o segundo tiver um resultado bom, vai surgir uma demanda pelo terceiro. Existe uma harmonia bacana entre muita gente que está participando do filme, então é uma possibilidade, além de que o próprio mercado cinematográfico vai “pedir” esse filme.

Terra - Você já está em outros projetos para novos filmes?
Roberto -
Depois do De Pernas Pro Ar, veio uma série de convites para filmes na mesma linha e eu aceitei, desde que tivesse as condições criativas para fazer. Acabei de rodar um filme com a Heloisa Perissé, chamado Dia dos Namorados, que também teve o roteiro do Paulo Cursino, além da participação do roteirista Marcelo Saback como ator. Nessa linha, ainda temos o filme Doidas Pra Casar, que é uma história original do Marcelo Saback. Enfim, o mercado ainda vai pedir o Até Que a Sorte Nos Separe 2, que será mais pra frente, para termos tempos de reciclar a comédia e buscar novos elementos.

Terra - Em 2002, você conquistou público e crítica com o premiado suspense Bellini e a Esfinge. Seus últimos dois filmes, por outro lado, foram comédias românticas mais comerciais. Você pretende voltar a explorar outros gêneros?

Roberto - Como cineasta, vou buscar o que está parado em minha carreira em termos de gênero, que era o filme de suspense, o thriller, a ação, passando pela ficção científica. Estou abrindo uma série de possibilidades, mas estou sem tempo porque estive fazendo um filme atrás do outro. É questão de abrir um espaço na agenda para ir buscar essa variação de gênero e descobrir que cineasta sou eu.

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