
Atualizada às 14h37 Os olhos de Rodrigo Santoro e um certo atrevimento podem ter garantido ao ator um de seus papéis mais polêmicos. O brasileiro será o cubano revolucionário Raúl Castro no filme Che, de Steven Soderbergh, que o levará nos próximos dias ao Festival de Cinema de Cannes.
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O filme, que conta com o apoio do Centro Che Guevara, em Havana, faz uma adaptação dos diários de Che durante a revolução que começou em Cuba, ao lado de Fidel Castro e seu irmão, Raúl, nos anos 1950. Che tem mais de quatro horas de duração - na verdade são dois filmes, O Argentino e Guerrilha - e será exibido em duas partes no festival.
Esta será a segunda vez de Santoro em Cannes, após sua ida com Carandiru cinco anos atrás. Ele também estará no festival com o argentino Leonera, que assim como Che é falado em espanhol e está na competição do festival. O evento abre na quarta-feira.
"Sabia que era um personagem delicado e muito polêmico", disse Santoro sobre o papel de Raúl Castro, hoje presidente de Cuba. "Como ator, o que eu tenho que fazer é tentar incorporar um ser humano. Não vou fazer uma análise política, eu não posso julgá-lo", disse.
"Eu estou fazendo não o Raúl Castro. Eu estou fazendo o Raúl, o ser humano, o camarada que viveu aquela revolução."
Para fugir dos "estereótipos" que afirmou ter encontrado na Internet, Santoro embarcou em uma longa viagem a Cuba, durante quase dois meses. Visitou Sierra Maestra, de onde Fidel comandou a revolução, e a casa onde os irmãos nasceram.
"Adorei a ilha, passei dias maravilhosos, adorei as pessoas, a energia", disse Santoro por telefone. "Naturalmente é um mundo paralelo ... nem dá pra ficar descrevendo", disse.
"Mas ficou totalmente guardado no meu coração. Eu me sinto um pouco cubano. Foi muito forte a experiência."
Os olhos de Santoro
Antes de toda essa emoção, no entanto, Santoro teve que batalhar muito para conseguir qualquer papel no filme, um projeto que vinha se arrastando havia cinco anos. O ator disse que pediu a seus agentes para conseguir uma conversa com os produtores de Che, já que havia perdido o casting de atores.
"Conversando com a produtora, ela me falou que havia mexicanos, argentinos, venezuelanos no filme", disse. "E me ocorreu uma coisa e eu disse para ela 'mas não tem nenhum brasileiro, e o sonho do Che era fazer a revolução no América Latina inteira, e está faltando um brasileiro"', disse, rindo da própria ousadia."Ficou uma coisa assim meio cômica, mas acho que funcionou."
Uma foto de Raúl Castro jovem, na época do ataque ao quartel de Moncada, em 1953, também ajudou. "Ele tinha os olhos puxados. E acho que eles (os produtores) viram isso e pensaram 'tem um olhar aqui, uma semelhança física grande"', disse.
O filme, que tem Benício Del Toro como Che, foi rodado em diversos países, mas Santoro só participou das filmagens em Porto Rico e México. Por não ter visto o filme ainda pronto, Santoro diz estar bastante ansioso com a ida a Cannes.
"Essa coisa de quantas cenas, quantas falas, toda essa história, eu realmente não posso te dizer porque o filme passou por um processo de edição muito longo, são dois filmes, tem muita coisa, muitos personagens", disse.
De volta à prisão
Em Cannes, Santoro estará também com a equipe de Leonera, do argentino Pablo Trapero. Ele faz uma participação como Ramiro, um estrangeiro que vive há muito tempo em Buenos Aires e se envolve numa trama de mistério e assassinato.
Assim como em Carandiru, onde fez o travesti Lady Di, as cenas de Leonera foram rodadas em presídios de verdade, como o de Olmos, maior penitenciária de segurança máxima do país.
"O ambiente de confinamento produz um cheiro, uma energia, uma coisa muito específica, pesada", disse. "E isso ajudou porque o Ramiro é meio que um estranho no ninho. Ele é jogado ali, e o ambiente ajuda (na interpretação)."
Deixando de lado papéis tão pesados, Santoro está no momento em Nova Orleans, rodando I Love you Phillip Morris, ao lado de Jim Carrey e Ewan McGregor.
O filme, que deve estrear em fevereiro de 2009, é baseado em uma história real, uma espécie de drama contado com humor. Santoro é Jimmy, por quem o personagem de Carrey se apaixona antes de ir preso por estelionato.
Os três atores fazem personagens gays e chegaram a frequentar boates gays de Miami para entrar no clima. "Foi um laboratório, para estudar mesmo. A gente deu uma saída para pesquisar (...) para conversar sobre o trabalho, sobre o que íamos fazer", disse Santoro, fotografado de camisa aberta e braços dados com Carrey, em uma cena do filme divulgada recentemente.
Reuters
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