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 Diretor de origem argelina ameniza polêmica de filme
21 de maio de 2010 12h00 atualizado às 12h29

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Cena de 'Hors la Loi'
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Orlando Margarido
Direto de Cannes
Segurança redobrada, caminhões com policiais na porta, revista rigorosa e uma tensão no ar. Foi a manhã de exibição em concurso de Hors la Loi (fora da lei, em francês), co-produção entre França, Argélia, Tunísia e Bélgica, que chegou ao festival já imbuído de polêmica. Isso porque o cineasta francês de origem argelina Rachid Bouchareb cutucou uma antiga ferida da história de ambos os países. A colonização francesa na Argélia e a luta de independência desta é o foco da fita em registro ficcional, e o orgulho da nação anfitriã sai atingido, segundo grupos e políticos conservadores, que já se mobilizaram contra a produção.

A controvérsia se concretizou quando jornais locais despertaram o debate, o que levou o diretor a publicar uma carta aberta condenando as opiniões antes mesmo de o filme ser exibido. Questionava-se, principalmente, o fato de Hors la Loi ser acolhido por Cannes, já que a trama deixaria a França em má figura. Não está longe de ser verdade, embora essa atitude cabe não apenas ao filme de Bouchareb e já faz parte de um quadro histórico evidente de repressão e morte do povo argelino.

O diretor italiano Gillo Pontecorvo realizou em 1966 A Batalha de Argel, o grande filme a respeito da luta da Frente de Libertação Nacional, a FLN, para a independência três anos antes. Mas nesse caso, os conflitos se passam na capital argelina, enquanto Bouchareb fixa seu drama histórico ¿ novela um tanto melodramática seria mais preciso ¿ na França. Para lá emigram Saïd (Jamel Debbouze) e sua mãe (a ótima Chaifa Boudraa, ex-militante). Vão fugidos do aumento da repressão e a procura dos irmãos, Messaoud (Roschdy Zem), combatente na Indochina, e Abdelkader (Sami Bouajila), que solto da prisão se tornará o líder dos primeiros passos da FLN em solo francês.

Estruturado o universo, o diretor mostrará que o grupo de rebeldes usará de táticas tão agressivas e de terror, inclusive com seus conterrâneos, quanto o inimigo em sua revanche. Apesar dessa tentativa de equilibrar o cenário, ele foi cobrado pelos jornalistas sobre uma visão negativa que pende para a França. "Antes de tudo fiz um filme não político e sim histórico, sobre dramas humanos naquela condição, onde há possibilidade para todos se exprimirem, franceses e argelinos", disse.

Como nessa, nas demais questões Bouchareb procurou suavizar o debate, mas estava visivelmente nervoso. Para quebrar a tensão, o ator Jamel Debbouze fez várias piadas. Num certo momento, se levantou e disse, para risos gerais: "E eu quero anunciar que eu também fui violentado por Polanski quando tinha dezesseis anos". Ele e o elenco masculino principal do filme trabalharam com o diretor em Dias de Glória, filme que há quatro anos rendeu em Cannes um prêmio conjunto para os atores.

O diretor ainda apontou que não quer que seu filme sirva para um campo de batalha. "Já houve muita violência no passado; o importante agora é apresentar essa memória para uma nova geração que não a conhece e abrir o debate; essa é a maior contribuição do filme". Um dos produtores presentes negou, depois de um questionamento, que a França tem dificuldade em lidar com seu passado colonial e a repressão na Argélia. "A França foi a primeira a co-financiar esse projeto e nós fomos acolhidos por um festival francês; em último caso, é o público que vai nos julgar".

Bouchareb também negou que tenha havia alguma pressão por parte da Argélia sobre o filme, no sentido de não apresentar os integrantes da FLN como violentos degoladores e assassinos a sangue frio. "Soube dessa notícia e ela é falsa, posso assegurar; trabalhamos com total liberdade". Insistiu que seu filme quer emocionar e não dar necessariamente conta de uma injustiça do passado. "Eu faço cinema e quero apenas contar uma história onde todo mundo envolvido tem seu lugar e voz".

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