Cena de 'Lung Boonmee Raluek Chat', que levou a Palma de Ouro em Cannes
Foto: Divulgação
- Orlando Margarido
- Direto de Cannes
Com bem menos decepções do que se esperava, o júri da competição oficial do 63º Festival de Cannes fez sua tarefa com dignidade na maioria das categorias e ousadia no prêmio principal. A Palma de Ouro para o filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que na tradução do título completo chama-se Tio Boonmee que se Lembra de Suas Vidas Passadas, reafirma uma vocação de buscar e apontar o novo para o mundo, mesmo quando essa novidade tem mais de uma década de carreira. Restrito a mostras e festivais freqüentados por cinéfilos, o realizador da Tailândia agora ganhou seu cartão de visita internacional.
Da mesma forma, a escolha do representante do Chade para prêmio do júri também mostrou que o time liderado pelo cineasta americano Tim Burton está sintonizado com a produção de origem menos globalizada. Un Homme qui Crie, de Mahamat-Saleh Haroun, é segundo Burton um filme de paixão sobre a condição de uma nação no mundo que pouco se conhece, como explicou na coletiva de imprensa após a premiação.
Na outra ponta completamente oposta, e de pura diplomacia com o país sede do evento, está o Grande Prêmio do Júri para o convencional e sem nuances Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois. Pode-se pensar o mesmo, numa repetição desnecessária da cinematografia francesa, do reconhecimento de melhor diretor para Mathieu Amalric e sua pequena extravagância vazia Tournée. É um modo de saldar também esse nome que é estrela atual do cinema da casa.
Afora essas duas decisões questionáveis, as demais premiações podem ser consideradas menos ambiciosas e com pretensão de agradar certa parcela da competição. Mas não soam injustas. Foi difícil para Burton explicar a divisão de prêmio de melhor ator para Javier Bardem e Elio Germano. "Nós do júri achamos que são duas ótimas interpretações, diferentes e que se complementam, na medida em que são dois pais lutando por suas famílias, e não conseguimos decidir por uma", disse.
Mas o desafio de um júri é justamente fazer apostas de risco, e a evidência de superioridade de Bardem em sua interpretação trai a postura. A compensação veio com a escolha correta de Juliette Binoche para melhor interpretação, saldando por tabela o belo filme de Abbas Kiarostami, que bem ficaria com um dos prêmios do júri. Ou também com o roteiro, dado ao coreano Poetry, filme levado com força de atriz. O significativo é que se conseguiu contornar trabalhos fracos mesmo de constar em competição ¿ caso do filme de Nikita Mikhalkov (The Exodus - The Burnt Sun 2) e de Rachid Bouchareb (Hors La Loi), este sem mesmo validar na tela sua polêmica entre argelinos e franceses ¿ e apontar de modo geral o que dever ser visto para quem gosta de ver e debater cinema até a próxima edição, em maio de 2011.
- Redação Terra








