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Novo filme de Tarantino: um bando de caras em uma missão

10 mai 2009
14h23
atualizado às 15h22

"Esse não é o filme de Segunda Guerra Mundial do seu pai", disse ironicamente Quentin Tarantino, em uma esquina cujos sinais do século 21 foram removidos para se tornar o set de filmagens de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds no original - tanto a grafia de "inglorious" quanto de "bastards" estão incorretas por opção do diretor), seu novo filme sobre um grupo de soldados judeus americanos em busca de vingança contra nazistas.

Embora a maior parte do filme tenha sido filmada no Studio Babelsberg em Potsdam, Alemanha, seu subtítulo é "Once Upon a Time in Nazi-Occupied France" (era uma vez em uma França ocupada por nazistas). Em dezembro, durante a estada de três dias em Paris, Tarantino e sua equipe de produção binacional ocuparam um bistrô de 1904, com pintura desgastada, vitrais em art déco e uma parede de janelas com vista para um cruzamento de ruas notadamente parisiense no 18º arrondissement.

"Precisávamos de uma cena que convencesse a audiência de que estamos na França", disse Tarantino. "Aí está."

Bastardos Inglórios, que estréia no Festival de Cannes no dia 20 de maio, é o primeiro filme de Tarantino desde À Prova de Morte, metade de Grindhouse - produção dupla e fracasso de bilheteria que dirigiu com Robert Rodriguez -, e sua primeira produção solo desde Kill Bill Vol. 2, de 2004.

Tarantino chama Bastardos Inglórios de seu "filme com um bando de caras em uma missão". Com base no roteiro, ele deve ter os diálogos afiados, o humor irreverente e a violência estilizada característicos de seu trabalho.

"Você precisa fazer um filme sobre alguma coisa, e eu sou um cara de filmes, penso em termos de gênero", disse. "Então, você tem uma boa idéia, vai em frente e, mais ou menos no momento em que você termina, ela não se parece com nada daquilo que pode ter sido a inspiração. Foram apenas as fagulhas que começaram o fogo."

A fagulha que iniciou Bastardos Inglórios, estrelando Brad Pitt, Diane Kruger, Mike Myers, Eli Roth e grande elenco internacional, remonta aos dias de Tarantino como atendente de uma vídeo-locadora em Manhattan Beach, Califórnia. (A inspiração para Cães de Aluguel, Jackie Brown e outros de seus filmes também pode ter surgido nessa época.)

"O pessoal da Video Archives me falava: 'Quentin, talvez um dia você faça seu próprio Bastardos Inglórios (Assalto ao Trem Blindado)'", disse Tarantino, se referindo ao filme de 1978 de Enzo G. Castellari. "Mas eles nem tinham visto o filme. Tudo bem, era só um título ótimo. Adoro o filme, não me entenda mal, mas isso não é uma refilmagem", disse sobre sua versão. "Estará na categoria de originais do Oscar", acrescentou com otimismo.

Lawrence Bender, que só não produziu um de todos os filmes de Tarantino, disse que ficou surpreso quando Tarantino o chamou no último verão americano para anunciar que havia finalizado o roteiro do longamente gestado Bartardos e que queria terminar o filme a tempo de Cannes. Foi no festival que Tarantino ganhou o prêmio máximo, a Palme d'Or, em 1994, por Pulp Fiction - Tempos de Violência.

"Ele leu para mim todo tipo de coisa ao longo de anos", disse Bender, "mas sempre considerei ser algo que ele teria e nunca faria." (Tarantino é conhecido por fazer vários desvios entre um filme e outro. Ele dirigiu episódios de séries de TV, como CSI, produziu e atuou em filmes de outras pessoas e foi um juiz convidado e "mentor" em American Idol.)

Um período de seis meses de pesquisa para Bastardos há muitos anos "paralisou minha escrita por um tempo", disse Tarantino. Ele pensou em realizar um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial ou lecionar um curso universitário e até esboçou uma minissérie de 12 horas. Então, em janeiro de 2008, ele decidiu "tentar mais uma coisa para ver se poderia tornar isso num filme", disse. "Não queria dar uma aula de história. Você pode ver o History Channel - que também pode ser chamado de Hitler Channel. Só queria contar minha história e ter a mesma liberdade que teria ao contar qualquer história. Quero que o ato da escrita seja tão recompensador que me obrigue a me perguntar se sequer quero fazer o filme."

O roteiro sem edição de Tarantino já circulava na internet dias depois de ter sido terminado. "Era tão pessoal para mim, com os erros ortográficos e tudo mais", disse, mencionando que o datilografou com um dedo na mesma máquina de escrever Smith Corona de 1987 que usou para criar Cães de Aluguel e Pulp Fiction. "Quer dizer, vou revisar quando publicá-lo."

Não que ele vá mudar o título. "Basterds deveria ser escrito com um e", disse. "Soa como um e para mim." Ele gritou "Basterds! Basterds!" em um sotaque semelhante ao de Boston. (Quanto à grafia de Inglourious, ao invés de Inglorious, Tarantino disse: "Não posso falar dessas coisas. É uma coisa do filme".)

Um homem com walkie-talkie puxou o braço de Tarantino. "Desculpe, estão me tirando de cena", disse, e entrou no bistrô para filmar a tomada em que Shosanna (interpretada pela francesa Melanie Laurent), uma jovem judia que se esconde e dirige um cinema de Paris, se senta com um soldado nazista e ídolo das matinês (o alemão Daniel Bruehl) que está tentando ganhar sua afeição e que nada suspeita de sua origem. Tarantino observava os atores como se supervisionasse um casal do outro lado da sala, mal olhando para o monitor ao lado.

"Eu vejo através do visor quando defino uma tomada", disse entre as filmagens, "mas assisto e ouço as atuações. De outra forma, o monitor estará dirigindo o filme."

Como 70% de Bastados Inglórios, a cena acontecia em francês e alemão, uma das razões pelas quais esse não é o filme de Segunda Guerra Mundial do seu pai. "Quando você vê alemães falando inglês com um sotaque alemão ou soando como um ator dramático inglês, tudo parece esquisito demais", disse Tarantino. "Isso é uma coisa que eu não quero que esse filme tenha. Se Spielberg ainda não tivesse filmado A Lista de Schindler, brinco, gosto de pensar que, depois do nosso filme, ele teria sido compelido a fazer tudo em alemão."(Executivos da Weinstein Co. disseram que o forte uso de legendas não lhes deu sossego. "Tarantino é uma linguagem universal", disse Tom Ortenberg, presidente de filmes para cinema.)

Bruehl disse que foi a abordagem dessacralizada do diretor sobre a dolorosa história da Alemanha que o atraiu para o papel. "Estou curioso para ver como ele será recebido na Alemanha", disse Bruehl, 30 anos, colocando o filme na tradição de obras como Ser ou Não Ser (1942), de Ernst Lubitsch, e O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin. "Se uma comédia for inteligente e tiver profundidade, é uma forma legítima de falar sobre fascismo na Alemanha nazista, que também foi um grande espetáculo - e, se você pensar sobre isso, muito ridículo."

O roteiro está repleto de referências cinematográficas e brincadeiras, além de intrigas envolvendo atores e estréias de filme. O ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, é retratado como um típico chefe de estúdio. "As pessoas escrevem sobre os horríveis filmes anti-semitas", disse Tarantino, "mas a maioria dos 800 filmes que ele fez foram comédias e musicais". E é seguro dizer, sem estragar a penúltima cena de ligação da trama, que o cinema salva o mundo.

O diretor de arte David Wasco, que só não trabalhou em um de todos os filmes de Tarantino, disse que, apesar de terem se esforçado para reproduzir o período usando fotografias e documentos originais, "uns 90% são referências cinematográficas". "É um mundo no período quentininano", acrescentou. "É isso que ajudamos a fazer aqui."

Tarantino disse: "Todo o conteúdo do filme meio que acontece organicamente. É só nisso que tenho interesse."

Mais tarde naquele dia, garrafas de champanhe apareceram na calçada, e Tarantino pediu um brinde em honra ao 800º rolo de filme. Ele circulou, batendo copos de plástico enquanto a noite caía sobre a cidade, com uma palavra e um sorriso para todos os presentes.

Os Basterds - os soldados judeus do filme, que ganharam o apelido dos nazistas - não fizeram a viagem a Paris, mas sua presença podia ser sentida no "corte de cabelo bastardo" (curto aos lados e atrás, longo no topo) que Tarantino exibia. "Os Basterds não têm o luxo de serem soldados", disse. "Eles têm um compromisso como guerreiros, porque estão combatendo um inimigo que está tentando eliminá-los da face da Terra."

Tarantino, que nasceu no Tennessee, disse que suas fantasias infantis de vingança se concentravam sobre o Ku Klux Klan. "Mas é tudo a mesma coisa", disse. "Depois dos Basterds terminarem na Europa, eles poderiam ir ao sul dos EUA e fazerem o mesmo com os membros do Ku Klux Klan nos anos 50. Essa pode ser outra história para contar."

Sem mencionar uma subtrama na gaveta sobre soldados afro-americanos presos atrás de linhas inimigas. "Tenho um esboço pela metade pronto para sair se o filme for um estouro", disse.

O diretor Quentin Tarantino no set de filmagem
O diretor Quentin Tarantino no set de filmagem
Foto: The New York Times
The New York Times
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