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Sábado, 26 de maio de 2007, 10h17 Scorsese: o cineasta capaz de fazer qualquer filme valer a pena |
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Ele tem 64 anos, uma filmografia brilhante, um projeto para salvar o patrimônio do cinema e, há três meses, um Oscar, mas Martin Scorsese possui também outro dom: o de ser capaz de encontrar algo que valha a pena em qualquer filme.
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"É como a pintura: qualquer quadro tem algo interessante. E também todo filme tem um plano, uma atuação, a iluminação... um momento que é capaz de despertar na mente a idéia de que vale a pena. Só é preciso ter paciência", afirmou o cineasta nova-iorquino em um salão do hotel Carlton, em Cannes.
O problema para se dedicar ao ponto-chave "é uma questão de tempo. Quando se é jovem, se está disposto a ver tudo, mas quando se é adulto, não se tem mais tempo", acrescentou.
O amor de Scorsese pelo cinema levou o cineasta a retornar ao Festival de Cannes para apresentar seu projeto da World Film Foundation mais de 30 anos de receber a Palma de Ouro por Taxi Driver (1976).
A iniciativa do premiado diretor foi divulgada no Palácio dos Festivais em frente a um auditório lotado no qual figuravam colegas célebres como Quentin Tarantino e Claude Lanzmann.
A World Film Foundation, que contou com a colaboração de cineastas como o brasileiro Walter Salles e os mexicanos Guillermo del Toro e Alejandro González Iñárritu, é destinada a proteger o patrimônio cinematográfico da destruição originada pela deterioração ou perda dos negativos.
Vários resultados do trabalho puderam ser vistos nesta edição do 60º Festival de Cannes, como Limite, um filme de Mario Peixoto que foi restaurado e que foi apresentado por Salles esta semana.
"Conheço o Walter há anos. Depois conheci Del Toro e Iñárritu, mantivemos contato e passamos muito bons momentos juntos. Gostamos de conversar e rir e do mesmo tipo de cinema", disse.
Sua relação com o cinema mexicano não acaba por aí, já que Scorsese também aponta entre suas preferências os filmes protagonizados por estrelas como Pedro Armendáriz e María Félix. "No México eram feitos bons filmes nos anos 50, é um cinema muito importante", ressaltou.
Os longa-metragens dessa década em muitos países de todo o mundo, incluindo os EUA, são precisamente os mais ameaçados pelo mal estado de seus negativos originais. Nessa época, não havia outro meio de conservação para armazenar os rolos de celulóide, e "alguns estúdios descartavam as cópias porque ocupavam muito espaço", acrescentou.
"Quando vejo casos assim, acho uma desgraça. Quando o vídeo começou, alguns estúdios se deram conta de que a restauração e a reedição eram meios de ganhar dinheiro com filmes antigos", lamentou Scorsese, que acredita que seja vital promover os arquivos cinematográficos.
Os estúdios "não se dão conta de que os filmes não são seus; pertencem ao mundo, eles são meros protetores", acrescentou. Segundo Scorsese, o problema trazido à tona pela World Film Foundation lhe consome bastante tempo.
"Há diretores que me encorajam a trabalhar mais fundo na Fundação, e embora possa me sentir arrebatado por esta idéia, ainda gosto de fazer filmes", disse.
Entre os novos longas de Scorsese, figura um filme de ficção com seu último "queridinho", Leonardo di Caprio, baseado no ex-presidente americano Theodore Roosevelt.
O diretor também tem em mente um projeto para contar a história dos Estados Unidos através da música popular, outra de suas paixões, visível em títulos de sua filmografia como The Last Waltz (A Última Valsa), de 1978, e o documentário No Direction Home: Bob Dylan, de 2005.
Atualmente, Scorsese vem se dedicando à conclusão de outro filme no estilo de A Última Valsa, sua famosa filmagem do concerto de despedida do The Band, mas centrada nos Rolling Stones. O filme, intitulado provisoriamente Shine a Light, é baseado na última turnê da banda britânica, e "está quase finalizado".
"É um filme sobre música e sobre o dom da interpretação", a fim de fazer "uma montagem que fique como uma coreografia que mostre como os músicos se movimentam; Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood se movimentam muito", afirmou.