Cinema

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12 de agosto de 2012 • 17h34

Com Jair Rodrigues, 'Super Nada' faz sátira à decadência da TV brasileira

Cantor vive um apresentador de programa de comédio no filme de Rubens Rewald
Foto: Onofre Veras / AgNews
 
Beatriz Carrasco
Direto de Gramado

Ele é um ator que, entre bicos no farol e participações em pegadinhas, luta para impulsionar a carreira e dar algum sentido à sua vida. Ao andar pelas ruas do centro de São Paulo, Guto aparece como apenas mais um coadjuvante da metrópole, que interfere em suas emoções e em seus caminhos.

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Super Nada, de Rubens Rewald - de Corpo, 2007 -, foi exibido no segundo dia do 40º Festival de Cinema de Gramado, na categoria de longa-metragem nacional. O filme ainda conta com a participação de Jair Rodrigues, que vive Zeca, um humorista velho e decadente. A atração que Zeca apresenta remete ao formato de programas como Zorra Total, ao expor, com bordões e piadas sem sentido, a decadência do humor na televisão brasileira.

O personagem que conduz a trama, porém, é Guto, um ator que vive em conflitos emocionais e que não consegue encontrar um emprego para pagar as contas. Interpretado com maestria por Marat Descartes, a história se constrói na capital paulista, com seus bares, apartamentos minúsculos e perturbações psicológicas, onde "nem os 15 minutos de fama são garantidos", pontuou Rewald. "Tentei interpretar um ator que não é tão bom ator. Ele se perde em questões emocionais e talvez não seja tão talentoso assim", comentou Marat em entrevista coletiva realizada neste domingo (12).

Ao falar sobre seu personagem, Marat não deixa de observar que a maturidade é mais uma questão psicológica do que de idade. Além de não encontrar estabilidade emocional e financeira, Guto, que tem 30 e poucos anos, tem uma filha que mora com a avó. "A pessoa pode ter 50 anos e continuar 'patinando'", comentou o paulistano. O intenso drama de Guto é mesclado, porém, por cenas cômicas, que concedem mais leveza à narrativa. Além das esquetes de comédia que ele participa, o ator protagoniza boas cenas em casa, enquanto faz exercícios de dramaturgia.

As partes de humor da trama ainda se completam com Jair Rodrigues, apresentador de um programa de comédia chamado Super Nada. Guto, que é fissurado pelo humorista, consegue um teste para participar da atração. "O Jair não foi a nossa escolha logo de cara, queríamos um ator mesmo, porque é um papel difícil", contou Rewald, que inicialmente pensou em escalar Otavio Augusto e Tarcísio Meira - Otavio chegou a aceitar o convite, mas não entrou para o projeto por problemas no contrato com a TV Globo.

O cineasta recebeu muitas respostas negativas ao convidar atores, já que o papel era de "risco". "É um papel arriscado para um ator consagrado, então a gente percebeu que a adesão não ia acontecer", comentou a co-diretora Rossana Foglia. Eles, que precisavam de uma figura de peso, finalmente pensaram no músico. "O Jair é uma figura fantástica, mas não é um ator, embora já tenha feito um longa", pontuou Rossana, ao observar que a equipe teve que se adaptar ao cantor para gravar as cenas.

Jair também é um homem religioso e "não gostava dos palavrões", contou Rewald. "Mas o Jair, não à toa, tem o apelido de cachorrão. Ele é tudo menos um bom mocinho", brincou o diretor, que passava o texto com o cantor antes das filmagens, para decidir quais termos poderiam substituir os palavrões. "Foi engraçado que, no final, quando vinha o verdadeiro Jair, ele falava dez vezes mais palavrões que os do personagem", divertiu-se o cineasta. Rossana, por sua vez, destacou que o cantor teve "uma colaboração muito generosa, arriscada e verdadeiramente artística".

Zeca, segundo Rewald, é tão complexo que, dependendo do ator, o personagem seria completamente diferente. Com Jair, ele assumiu a figura de um malandro suburbano que conquista pela espontaneidade. "O filme poderia ser muito mais pesado. O Jair trouxe um pouco mais de leveza, apesar de ele também conseguir trazer esse lado obscuro do personagem", pontuou o diretor.

À frente do fictício Super Nada, Zeca protagoniza quadros de humor despretensioso e sem valor reflexivo. "Há muitas ambiguidades nessa coisa da televisão aqui no Brasil", opinou o diretor, ao expor que apesar de ser difícil não se render aos meios de comunicação da grande massa, deve-se tomar cuidado para não aderir completamente aos seus mecanismos.

O cineasta ainda comenta sobre os signos, como a cultura pop e o tropicalismo, que se apoderaram desses meios de comunicação nos primórdios da televisão no País, "mas tem uma nova questão, que é um contexto de decadência, que nos anos 1960 não existia. Tinha uma coisa de novidade, de frescor. Então quando se tirava sarro ou exaltava o Chacrinha, tinha uma celebração. Hoje, você também pode fazer essa celebração, mas já existe a ideia de decadência, e isso está no projeto do filme".

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