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Diretora denuncia abuso infantil nos EUA

7 out 2009 03h41
| atualizado às 03h59
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Cerca de 20% das pessoas que já abusaram sexualmente de crianças estão nos Estados Unidos e aproximadamente 80% dos casos de turismo sexual na América Latina são praticados por americanos. É o que afirma Libby Spears no seu controverso novo documentário, Playground, que teve sessão no Festival do Rio nessa terça-feira (6), sem a presença da diretora - por alguma razão ainda desconhecida ela faltou ao evento, mesmo estando na cidade.

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O documentário carrega em sua produção nomes fortíssimos, como George Clooney e Steven Soderbergh, mas seu compromisso com estética cinematográfica pára por aí. Talvez a maior preocupação da diretora nesse sentido foi utilizar belíssimas e simples animações feitas pelo artista japonês Yoshitomo Nara entre uma cena e outra do filme. A grande tentativa de Libby aqui foi tentar expressar em dados, imagens e declarações um parâmetro sobre o abuso sexual de crianças nos Estados Unidos.

Quando entrou de cabeça no projeto, Libby pretendia fazer um documentário sobre a exploração sexual na Ásia e América Latina. Parou quando descobriu que a maioria dos casos estava no seu "quintal", os Estados Unidos, parte por causa do avanço de comunidades na internet que reúnem admiradores de tais crimes. Quem dá a dica é uma ativista voluntária no Camboja, uma das primeiras entrevistadas do filme, que diz que as autoridades deviam olhar primeiro o que acontece nos seus países antes de analisar a situação da prostituição em outros de terceiro mundo.

É ai que descobrimos a história de Michelle, uma garota que foi estuprada pela primeira vez aos cinco anos de idade e passou por outro abuso após ser enviada para um lar adotivo. Entre entradas freqüentes em abrigos, aos 11, Michelle fugiu e passou a se prostituir por dinheiro. Foi descoberta por autoridades, mas fugiu mais uma vez e foi dada como desaparecida em 2004. Contando com ajuda de autoridades do FBI, Libby sai à procura da menina, passando por testemunhos de outras crianças, pais, ativistas e assistentes sociais que tentam explicar o problema.

Libby resgata alguns depoimentos chocantes de crianças abusadas que tratam o tema com uma naturalidade incômoda. Uma das entrevistadas conta que foi estuprada por dois mexicanos há poucos dias, mas não estava preocupada porque "existiam coisas piores" na rua.

A própria Michelle, que foi encontrada por Libby após três anos de procura, conta, com naturalidade, as vezes em que foi estuprada na infância. Ela, que teve dois filhos no tempo em que estava desaparecida, foi presa durante as filmagens por ter deixado uma das crianças com um traficante para comprar heroína. Segundo os dados não confirmados da polícia, a filha foi molestada por ele.

Se por um lado a diretora consegue arrancar depoimentos impactantes para fazer a denúncia social, de outra ela se apóia em declarações um tanto controversas sobre o que poderia desencadear a sexualidade precoce de meninos e meninas. Alguns motivos citados são as capas de revistas com cantoras como Britney Spears de biquíni e até a polêmica apresentação de Justin Timberlake e Janet Jackson no Superbowl de 2004, quando ele arrancou a blusa da cantora - deixando um de seus mamilos à mostra - durante uma performance em rede nacional. Para uma das ativistas do filme, Timberlake deveria ser punido por incitar que os homens poderiam arrancar a blusa de outras mulheres.

É nesse tipo de discurso que o documentário se perde. Tentar explicar os motivos por determinadas condutas sexuais não está ao alcance da direção, até porque boa parte das meninas entrevistadas passa por um processo de traumas que está além da sexualidade imposta pela mídia e, portanto, não mereciam tais argumentos. Em poucas palavras, Libby teria sido mais bem-sucedida se tivesse usado declarações com mais embasamentos para defender seu ponto de vista na tela.

Apesar de uma ou outra escorregada, Playground traz também a questão do que seria considerado crime sexual. Nos Estados Unidos, alguém que toca outra pessoa no elevador - mesmo não sexualmente - ou urina em público pode ser processado por assédio. Certamente uma controvérsia na imponente lei que protege as pessoas de abusos sexuais nos Estados Unidos. Outro aspecto positivo é que a diretora coloca a culpa não nas crianças abusadas, que diariamente são presas por se prostituírem, mas sim naqueles que as obrigam a cometer tais atos.

O assunto é polêmico e rende muita discussão. Uma pena que Libby não estava presente para poder comentar.

Cena do filme
Cena do filme
Foto: Divulgação
Fonte: Terra
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