
Atualizada às 15h05 Orlando Margarido
Direto de Brasília
Um homem político, metódico, racional e emotivo. Foram essas as qualidades, ainda que contraditórias, mais lembradas pelos estudiosos, colaboradores e familiares sobre o cineasta Leon Hirszman durante o debate na manhã desta quarta-feira no Hotel Nacional, o endereço oficial de convivência do Festival de Brasília.
» Público aplaude rigor de 'São Bernardo' em noite de abertura
» Veja fotos dos longas selecionados
» Veja fotos dos curtas selecionados
O encontro aconteceu em decorrência do relançamento em cópia restaurada de S. Bernardo (assim mesmo, abreviado, como o diretor adotou), um dos quatro filmes de ficção do carioca Hirszman, e obra-prima do cinema brasileiro baseada em Graciliano Ramos que abriu a 41ª edição do evento.
O filme também está sendo lançado em DVD, acompanhado do curta-metragem Maioria Absoluta (1964), sobre o analfabetismo,e de uma alentada reunião de textos críticos sobre o realizador e o filme. Dono de uma produção pequena mas signficativa, formada por cerca de 25 títulos, entre curtas, longas-metragens e episódios, Hirszman morreu de forma precoce em 1987, aos 48 anos.
Esta seria uma das razões para os poucos títulos de sua autoria. "Mas também ele era um realizador metódico, que demorava muito em suas filmagens por ser rigoroso detalhista, além de todas as outras dificuldades que se deve levar em conta para fazer cinema no Brasil", disse Carlos Augusto Calil, crítico e um dos responsáveis pela revitalização da obra do diretor e seu restauro.
A empreitada também parte de dois dos três filhos do cineasta, Maria e João Pedro Hirzsman, este cineasta, e do fotógrafo de cinema Lauro Escorel, que em S. Bernardo fez um de seus primeiros trabalhos. Estavam todos presentes na mesa, ao lado ainda dos atores Othon Bastos e Nildo Parente e do cineasta Vladimir Carvalho, entre outros convidados.
Foi de Carvalho, que se disse ainda impressionado por rever o filme, o mais longo e amoroso depoimento lembrando o primeiro encontro com Hirszman no Rio de Janeiro, em 1962, quando deparou com ele junto com Cacá Diegues.
"Acabamos formando um grupo que se misturava, claro, com o Cinema Novo; mas Leon era o racional do grupo, era o homem que sempre fazia da conversa sua arma, aquele que não radicalizava; seu lema era a negociação", contou o diretor paraibano, um documentarista contumaz. Lembrou ainda do humor judaico - a ascendência do cineasta - em situações como a que dizia atender as pessoas quando alguém soltava a expressão "meu deus do céu".
Calil, atualmente também secretário municipal da Cultura, em São Paulo, contextualizou a condição do realizador de Eles Não Usam Black-Tie lembrando que ele é um dos três pilares do Cinema Novo, ao lado de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade.
Também apontou a importância de "ter acertado" com S. Bernardo num momento em que o cineasta vinha com uma crise pessoal e profissional. "Ele vinha de um fracasso com Garota de Ipanema e pegou de frente a transformação político com o AI-5, em 1968, o que lhe trouxe grande desesperança; S. Bernardo foi um chamado à ordem nesse sentido, um projeto artístico de grande afinidade estética e ideológica". Presente na platéia do debate, o cineasta Geraldo Sarno - que concorre em Brasília com o longa-metragem Tudo Isto me Parece um Sonho - fez uma intervenção lembrando que Maioria Absoluta foi, ao lado de Aruanda (Linduarte Noronha, 1960), a maior referência documental para sua geração e que seu documentário Viramundo bebeu muito da mesma fonte.
Emocionado, Othon Bastos comentou os primeiros encontros com Hirszman para o projeto de S. Bernardo, em que interpreta o protagonista Paulo Honório. "Eu vinha de um papel de cangaceiro e todos os diretores queriam que eu repetisse o personagem; Leon chegou então e me entregou o livro de Graciliano e eu não me enxerguei no tipo físico de Honório", disse o ator.
"Ele então me disse que aquilo que queria é o que estava dentro de mim; foram essas certezas que fizeram da obra um filme atual até hoje". Coube a Escorel relatar a condição precária de equipamentos e a necessidade de intuição para realizar a fotografia, que guarda momentos sublimes como aquele em que Madalena, esposa de Honório, se despede dele na igreja.
"Como Leon foi extremamente fiel ao livro, até filmavamos com um exemplar em vez de roteiro, tudo era muito pensado e repensado para não gastar negativos". Bastos lembro que muitas cenas não podiam ultrapassar quatro minutos de duração, mas poderiam levar seis horas de ensaio. Esse rigor agora pode ser visto e revisto numa preciosa cópia restaurada como se fosse, segundo lembrou um dos convidados, a Capela Sistina de Michelangelo.
Especial para Terra
10h35 » Brasília: festival se marcou por falta de vitalidade
07h20 » Festival de Brasília consagra 'FilmeFobia'
17h33 » "Sempre fui rejeitado pelo cinema de mercado", declara Sarno