
Atualizada às 15h04 Orlando Margarido
Direto de Brasília
Primeiro longa-metragem a ser exibido na competição oficial de 35 milímetros, O Milagre de Santa Luzia promove uma ambiciosa viagem pelo País tendo como mote a música da sanfona e seus mestres. Pretende também fazer um recorte do que se convencionou chamar de Brasil real, aquela face menos evidente e explorada pela mídia em todas as suas variações, cinema ou TV, por exemplo, e fincada nos grandes centros urbanos. Quer ainda unir esses aspectos sob uma tinta de beleza e otimismo, que aqui em Brasília já mereceu questionamentos por passar um tom ufanista. Tantas intenções fazem sentir um peso na tela que quase põe a perder o trunfo do documentário, sua riqueza sonora e o valor dos maravilhosos sanfoneiros.
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O público que lotou o Cine Brasília na noite de quarta-feira, no mesmo momento em que Brasil e Portugal jogavam na cidade, gostou e aplaudiu com entusiasmo. Mas no debate ocorrido na manhã de quinta-feira com o diretor Sergio Roizenblit, os ânimos se dividiram e a recepção foi mais ponderada. A principal discussão aconteceu justamente em torno dos muitos temas que se entrecruzam no filme, que a partir de seu título denota um foco impreciso.
Esse aspecto religioso é justificado pelo dia de nascimento de Luiz Gonzaga, data em que se celebra Santa Luzia. Se é fácil aproximar Gonzaga do gênero musical explorado pela fita, não se torna óbvia sua relação com a religiosidade. O que importa nessa grande circunferência aberta pelo filme, é que nela cabem os demais mestres da sanfona como Patativa do Assaré, Oswaldinho do Acordeon, Renato Borghetti, Mario Zan, Toninho Ferragutti e Sivuca, este na parte final do documentário, já enfraquecido pela doença que o mataria em 2006. Para dar conta desse reinado de sanfoneiros, o filme utiliza o feliz recurso de convidar Dominguinhos, para muitos o maior no gênero, como um anfitrião e usa e abusa de seu conhecimento e desenvoltura no universo.
Nesse sentido, o filme cumpre sua intenção com momentos antológicos como o de Pinto do Acordeon cantando num inglês incompreensível músicas de Frank Sinatra, e assim pagar uma aposta, e concedendo o tempo necessário aos depoimentos e às apresentações, muitas vezes com músicas completas. Ou de momentos tocantes como de Mario Zan, morto em 2006, ou do próprio Dominguinhos emocionado ao lembrar quando saiu de Garanhuns, em Pernambuco, num pau-de-arara para chegar a São Paulo.
Os problemas aparecem com um número grande de convidados em cena e no traçado da viagem pelo País, que começa pelo nordeste, se estende até o sul e o Pantanal, volta para o nordeste e ainda contempla São Paulo. Algumas vezes o documentário parece perder o rumo e o pulso forte do diretor. Roizenblit disse no debate ter realmente se perdido em meio ao vasto material que recolheu. "Ficou muita gente de fora que me doeu cortar", comentou. "Chegou uma hora que eu não sabia mais para onde esse filme ia e por isso segui as próprias indicações dos sanfoneiros; mas defendo que todos tinham que permanecer no filme".
O diretor ainda justificou os momentos que se assemelham a um documentário turístico, com imagens de paisagens e aves, como uma licença poética que ele fez questão de incluir. "Não concordo que o filme tenha muitos assuntos; para mim é só um, o de um Brasil belo e real, como se referia Ariano Suassuna".
O público, ao menos os jovens que normalmente são a maior presença no festival, embarcou nesse Brasil que venceu com a sanfona e o colocou numa posição de destaque já na abertura da competição. Mas ainda faltam cinco filmes na disputa, que prossegue na noite dessa quinta-feira com o concorrente paulista FilmeFobia, o compêndio de fobias humanas realizado por Kiko Goifman.
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