
Atualizada às 15h03 Orlando Margarido
Direto de Brasília
De vez em quando surge uma proposta de cinema que não se encaixa nos gêneros tradicionais reconhecidos pelo espectador. FilmeFobia é um desses raros e bem-vindos casos.
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O longa foi exibido na noite desta quinta-feira, na competição oficial de longas-metragens com boa receptividade do público. Um público jovem, como é praxe em Brasília, formado por estudantes em geral de cursos universitários ligados ou não à área do cinema e na teoria mais exigente.
Exigência que também se via na tela tanto no tema como no embaralhamento de registros cinematográficos, seja documental, seja ficcional, como gosta o diretor Kiko Goifman, que já havia testado a fórmula em trabalhos anteriores como na estréia com 33. Mas agora ele vai mais longe.
Como aponta o título, FilmeFobia lida com as fobias humanas. Faz quase uma catalogação delas, das mais conhecidas, como a do medo por ratos e cobras, mas também surpreendentes, a exemplo de ralos e toques de celular. As situações, por assim dizer, se sucedem numa fórmula repetitiva. Os fóbicos são convidados a deparar com as causas de suas fobias numa espécie de armadilha ¿ são amarrados e envolvidos por engenhocas criadas pela artista plástica e fotógrafa Chris Bierrenbach e não raro chegam ao desespero.
Nesta representação, uma das muitas dúvidas que o filme desperta irrompe de imediato. Quais dessas fobias são reais ou não? Mas não há tempo para uma resposta do próprio filme, pois o que vem em seguida embaralha mais o cenário.
Goifman lança mão da metalinguagem, utilizando a fórmula do filme dentro do filme, a partir do personagem de um cineasta que justamente está realizando um filme sobre fobias. Não bastasse, esse diretor é interpretado por Jean-Claude Bernardet, crítico de cinema e ele mesmo ator e realizador.
Há ainda um último mas significativo elemento desestabilizador. O elenco é formado por fóbicos de verdade e atores, poucos, que também contribuem com seus medos e quem sabe fobias. No grupo entra o próprio diretor Goifman, fóbico de sangue, e que teve dez segundos de desmaio até que a produção o ajudasse em sua cena.
No interessante debate com a equipe do filme nesta manhã, Goifman explicou que deixou o acaso conduzir as situações, com suas verdades e mentiras. Em meio ao processo, os fóbicos eram avisados do que lhes aguardava com as engenhocas, mas os atores não. Oficialmente, trabalhou-se sem roteiro, mas havia um roteiro secreto de conhecimento apenas de alguns integrantes da equipe. Para assegurar que a situação não escapasse do controle, os atores apenas foram orientados a gritar uma palavra-código quando estivessem no limite do desespero.
Quase sempre aflitivo, o filme abre alguns momentos de humor protagonizado por José Mojica Marins, em sua personificação como Zé do Caixão, convidado a dar sua opinião sobre a força das imagens.
Vale a pena esperar para ver, mas o tom é politicamente incorreto. Assim como a primeira cena, sobre fobia de anões. Em outras passagens, há abertura para o enfrentamento também entre fóbicos e o "falso" diretor, como no caso de Vitor Ângelo, também um cineasta, e seu medo de palhaços.
Ele questiona o fato de ser exposto àquela situação, embora tenha escolhido estar nela, e acaba não tendo reação à imagem de um palhaço. Da mesma forma, o personagem de Bernardet, a certa altura, ajuda e é carinhoso com o fóbico a ratos. São ambigüidades e momentos instáveis que engrandecem esse belo filme, um compêndio de fobias, mas também um vasto material de psicanálise a quem se dispuser a sentar na cadeira do cinema para oitenta minutos de uma profunda análise.
Especial para Terra
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Divulgação
O longa foi bem recebido pelo público em Brasília
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