Festival de Brasília 2008

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Festival de Brasília 2008

Sábado, 22 de novembro de 2008, 14h58 Atualizada às 15h14

'Siri-Ará' recupera origem do povo cearense com encenação densa

Orlando Margarido
Direto de Brasília

"Eu pretendi citar uma poética que o Brasil não conhece". A justificativa do diretor cearense Rosemberg Cariry para seu filme Siri-Ará, um dos concorrentes oficiais ao Troféu Candango, vem em função da forma escolhida por ele para enfocar uma passagem histórica do Brasil pouco, ou nada, conhecida.

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Em 1603, o português Pero Coelho invadiu o território hoje conhecido como Ceará - daí o título, que faz referência à forma indígena, entre muitas interpretações - em busca do Eldorado e provocou uma guerra da qual de seus mil homens voltaram apenas nove. Também encontrou fome e miséria.

Esse acontecimento que sugere uma visão épica foi tratada por Cariry na chave oposta, ou ao menos num registro alternativo, com uma encenação de tradição cultural folclórica local baseada no uso do reisado e da música de pífanos. Ou seja, de pouco domínio de uma platéia maior.

Seu condutor nessa viagem que une mitos universais e locais é o personagem Cioran, filósofo nascido no Ceará e exilado na França, que retorna em busca de suas raízes. Não por acaso tem o nome do filósofo romeno E. M. (ou Emil), Cioran (1911-1995), conhecido por seu pensamento pessimista. Cioran, o personagem, tem pouco de pessimista, mas para o diretor também não chega a ser um otimista.

Cariry, no debate que ocorreu no final desta manhã, contou que muitas das idéias propagadas pelo protagonista, a partir da filosofia do estudioso romeno, foram retiradas na montagem final.

A questão é que para o público surge uma figura dúbia, num dos problemas da fita que vão se acumulando. Outro seria a narrativa que não facilita o entendimento do espectador não apenas na trama como em relação a todos os elementos de significado que Cariry pretende exprimir.

Outra dificuldade ainda seria a demora em se configurar a imagem de reconhecimento do protagonista, que se formata melhor com uma hora de projeção. Enfim, esses obstáculos barram, como se diz, a entrada do público no filme. Ainda que haja uma beleza natural, e como aponta o diretor, poética numa encenação de raiz que perpassa todo o filme, a simples utilização dela no trabalho não garante uma compreensão e um estímulo ao espectador.

Rosemberg credita essa dificuldade, em muito sentida ontem à noite com a saída de metade da sala do Cine Brasília, a um desconhecimento de uma tradição do país que existe e precisa ser mostrada. Também argumenta que quando seus filmes - em parte seguindo modelo semelhante - são exibidos na região Nordeste para pessoas que reconhecem os elementos implicados na cultura local, a receptividade é positiva e completa.

É de se imaginar então que Cariry prefere o risco de se restringir a um público seleto do que amplia-lo. Visto dessa forma, seu filme pode funcionar, ainda que com ressalvas. No último momento do debate, uma jovem se manifestou e disse que o filme é apenas uma sucessão de cenas e que, baiana que é, não havia entendido a proposta. Muitas vezes, declarações espontâneas como essa valem mais que longas discussões teóricas.

Especial para Terra

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