
Orlando Margarido
Direto de Brasília
Mesmo com uma longa sucessão de depoimentos, que mantinha uma cadência por vezes aborrecida, e o uso de legendas para a língua original indígena, Ñande Guarani (Nós Guarani) não afugentou todo o público do Cine Brasília nesta quarta (e chuvosa) noite de competição oficial pelo Candango. Houve uma pequena evasão da sala, mas a maior parte da platéia permaneceu até o final do documentário sobre o povo guarani e sua luta para se manter em suas terras. Os espectadores ovacionaram e acompanharam com palmas a trilha sonora dos créditos deste que é o primeiro longa-metragem de André Luís da Cunha, conhecido curta-metragista do Distrito Federal.
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Esse apelo local sempre fala alto por aqui e basta ver a comoção quando as equipes formadas por profissionais de Brasília sobem ao palco para a tradicional apresentação antes do programa começar. Cunha não se fez de rogado e aproveitou para contextualizar seu filme, um projeto para o qual foi convidado pelo produtor Bento Viana. Ao lado de lideranças do povo guarani, lembrou dos problemas que envolvem a tribo quanto à legalização e devolução das terras para esse povo indígena em várias partes do Brasil. Afinal, é em Brasília que tais questões se decidem e onde já está marcada uma audiência pública.
O filme também da conta do recado, ao percorrer seis mil km por Estados como São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, além de países como Argentina e Paraguai, mas dá um passo para trás no formato convencional escolhido. Isto num momento em que o festival discute novas narrativas de representação e as fronteiras cada vez menos claras entre documentário e ficção.
Mais inventivo e dedicado ao seu material é o curta-metragem Minami em Close-up ¿ A Boca em Revista, de Thiago Mendonça, representante paulistano. O documentário revisita o período do cinema da Boca do Lixo, ponto da produção marginal nos anos 70 em São Paulo, através do monossilábico personagem Minami Keizi, que no período editou a revista Cinema em Close-up, baseada em fotos de atrizes da Boca em poses provocativas. Mas o melhor está nos depoimentos que Mendonça colhe de diretores como Cláudio Cunha.
O outro concorrente da noite foi o simpático Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso, outro trabalho do Distrito Federal a se beneficiar da torcida local. Com uma narrativa em formato peculiar ao contar o drama de Paulo Roberto perto de conhecer a garota do título, mas mostrando apenas a protagonista, o curta é uma historinha de amor juvenil adaptada de um conto do ator Juliano Cazarré (A Festa da Menina Morta).
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