
Atualizada às 12h12 Orlando Margarido
Direto de Brasília
O cineasta Ivan Cardoso não veio ao Festival de Brasília por problemas pessoais. Mas foi devidamente representado por seu clássico do "terrir" O Segredo da Múmia, exibido em cópia renovada na quinta-feira passada, dentro da programação paralela do evento. Renovada porque não se pode falar formalmente de restauro neste caso.
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"Só trocamos as bandagens do fime", brinca Marília Franco, professora da USP e vice-presidente do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, responsável pelo projeto de renovação. "Infelizmente não havia orçamento para uma restauração completa, então fizemos uma limpeza do negativo, a retirada do resto de cola e uma telecinagem a partir das cópias de negativo existentes".
Neste domingo, o filme voltou a baila novamente por conta do tradicional encontro do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, entidade que nasceu oficialmente há mais de 30 anos, aqui mesmo, no Festival de Brasília. "É o nosso berço, por isso sempre marcamos uma reunião anual aqui", aponta Marília.
Um dos braços de atuação do grupo, além da prospecção de material a ser "salvo", é justamente a preservação e o restauro de filmes brasileiros mediante patrocínio, mas também de resgate de documentação, seja na forma de um roteiro seja na forma de fotografias.
O primeiro trabalho de restauração aconteceu com Aviso aos Navegantes (1950), clássico da chanchada de Watson Macedo, e deu conta também recentemente de O Homem que Virou Suco (1979), de João Batista de Andrade. "Foi com um restante de verba deste restauro que fizemos a renovação de 'O Segredo da Múmia'; é dessa forma que vamos trabalhando".
Após o restauro de um filme, o procedimento habitual do Centro de Pesquisadores, que segue as normas internacionais da Fiaf (a Federação Internacional de Arquivos de Filmes), é que o realizar fique com uma cópia, enquanto outra é depositada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
Integra o projeto ainda o lançamento da cópia nova em algum festival nacional, a exemplo do que aconteceu com O Segredo da Múmia, primeiro no Festival do Rio e agora em Brasília. "Mas o mais importante atualmente é convencer os cineastas da necessidade de cuidar e preservar bem a sua obra; daí um lema nosso de que a preservação começa na produção", aponta Marília.
Com a ausência de Ivan Cardoso, esperado para comentar seu filme e o valor do restauro, algumas pautas entraram informalmente na conferência dos pesquisadores, realizada no Hotel Nacional. Uma delas envolveu indiretamente O Segredo da Múmia, na questão levantada por Marília sobre o cinema de gênero. Entenda-se como tal uma cinematografia voltada a um estilo, e muitas vezes um tema específicos, onde o "terrir" se encaixa com desenvoltura.
A união de terror, comédia e sexo com sátira, quando não escracho total, uma das faces mais populares do cinema brasileiro, corrente da qual Cardoso é um dos líderes. "Essa expressão cultural tão nacional ainda é menosprezada e precisa ser objeto de reflexão como parte fundamental da nossa memória".
Marília lembra de outro caso que se apresentou em Brasília, a pornochanchada, tema do curta-metragem Minami em Close-up, que provocou debate sobre sua visão parcial da chamada produção da Boca do Lixo, em São Paulo.
Em outra situação, a professora aponta o desconhecimento dos jovens cineastas (e um público afinado com o cinema) sobre realizadores como Lima Barreto, também personagem de um curta exibido no festival. "Tudo isso é falta de referências, de acesso a algum instrumento que preserve a memória".
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