
Orlando Margarido
Direto de Brasília
O documentarista Evaldo Mocarzel partiu para seu retrato dos catadores de papel de São Paulo com um recorte pré-determinado. "Escolhi propositadamente um ponto de vista tendencioso, no bom sentido de mostrar o trabalho do ponto de vista dos personagens", disse no debate que aconteceu no Hotel Nacional. Ele acrescenta que pretendia deixar momentos "romanticamente ingênuos", mas que foram retirados na montagem final depois de uma exibição para a equipe e os produtores, num conselho desses últimos.
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Por essa razão também de um "partipris", ou seja, a tomada de partido, Evaldo não admitiu colocar um contraponto aos catadores na figura, por exemplo, de um dono de fábrica de reciclagem. "Qualquer procedimento nesse sentido levaria a outro tipo de documentário, de acareação, e eu queria justamente assumir uma causa, que era de celebrizar esse trabalho, um manifesto mesmo". Sua forma documental escolhida, quase um cinema de propaganda, como ele mesmo qualifica, dispensa a questão de rigor de ouvir o outro lado. "Além disso, é um filme focado na auto-narração, com os próprios personagens falando de sua vida, seu cotidiano".
Cabem nessa forma documental os depoimentos durante os momentos de atividade dos catadores, mas também um recurso já utilizado anteriormente por Evaldo de ouvir seus personagens enquanto esses assistem a si mesmos na tela, numa montagem final do documentário. "É uma postura minha de focar tudo de maneira minimalista, que eu acredito assim chegar ao universal". Para garantir a disponibilidade dos protagonistas para o documentário, Evaldo pagou uma espécie de cachê aos catadores, na forma de uma diária de trabalho por dia de trabalho.
Influência
Uma das influências fundamentais para seu trabalho documental é, aponta Evaldo, o cineasta russo Dziga Vertov e seu filme O Homem com a Câmera (1929), o que foi identificado no documentário na passagem em que se mostra o processo industrial da reciclagem. É um dos momentos mais interessantes e sofisticados do filme, acompanhado por uma trilha sonora poética, que no conjunto, imagem e som, lembrou a alguns presentes na sessão a série do cineasta Godfrey Reggio (a partir de Koyaanisqatsi, de 1982).
Evaldo acredita que este seja uma das poucas cenas do filme que busca captar uma emoção do espectador. "Eu tinha muito medo de lágrimas ordinárias e evitei tudo que poderia ir para essa linha".
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