
Orlando Margarido
Direto de Brasília
Só poderia caber a Geraldo Sarno, um dos veteranos e mais respeitados documentaristas brasileiros, fechar pela via da indagação a mostra competitiva do Festival de Brasília nessa noite de segunda-feira. Melhor seria dizer então que ele não encerra, nem tem a intenção de fazê-lo, nenhuma das muitas discussões acerca de velhas e novas linguagens cinematográficas que teimaram em vir à tona nos cinco debates dos longas-metragens integrantes da competição.
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Pelo contrário, seu filme Tudo Isso Me Parece um Sonho, escancara as dúvidas e pontos de vista diversos que rondam o tema ao apresentar-se como um projeto resultante dessa condição. Fragmentado, realizado em camadas ficcionais e documentais, e ainda por cima refletindo sobre a sua feitura, o filme não aceita um gênero de fácil reconhecimento. Não é só documentário, nem muito menos ficção ou ainda um híbrido dessas linguagens. Sai-se do filme com mais conjecturas do que certezas, perguntas do que respostas, o que a platéia do Cine Brasília deixou claro ao debandar da sala durante os 150 minutos de projeção.
Há, sim, um fio condutor dessa proposta e ele se chama José Ignácio de Abreu e Lima (1794-1869), general pernambucano que lutou, ao lado de Simón Bolívar, para libertar Colômbia, Venezuela e Peru do domínio da coroa espanhola e participou da Revolta Praieira, em 1848, no Recife. O filme se centra, inicialmente, numa pista da biografia do militar, também político, escritor e jornalista, a partir de um raro retrato seu existente na Assembléia Nacional venezuelana e se expande para o depoimento de estudiosos e a investigação do Pernambuco de sua época e da atual.
A narrativa é entremeada com a discussão da equipe do filme sobre o material existente e a melhor maneira de aproveitá-lo. Soma-se a esse encadeamento uma pequena reconstituição ficcional do general já moribundo refletindo sobre seus atos. Com esse painel de fôlego, Sarno propõe ao espectador acompanhá-lo ainda em suas reflexões sobre o documentário, desafio exigente, mas que ao menos nesse momento do festival se apresenta instigante para quem deseja pensar as novas formas do fazer cinematográfico. Resta saber se o filme se sustenta além desse crivo específico e poderá interessar a platéias maiores.
Ironicamente, os curtas-metragens da mostra oficial também têm sido objeto de especulação, talvez por um foco um tanto enviesado. Cobra-se dos realizadores presentes nos debates uma narrativa mais linear e fechada no sentido tradicional do termo - e gramática hollywoodiana - com começo, meio e fim. Reclamação justa em alguns casos, quando não há nem o que explorar na falta de densidade das tramas. Mas que não confere quando o final em aberto propõe ao espectador um esforço maior de raciocínio.
Nesse aspecto, os dois curtas-metragens da última noite devem provocar reações semelhantes, com suas situações no mínimo incômodas. Cães, representante da Bahia e dirigido por Adler Paz e Moacyr Gramacho, mergulha no realismo mágico do escritor Juan Rulfo (Pedro Páramo) para contar a saga de um pai que acerta as contas como filho enquanto o carrega nas costas em busca de água, numa região assolada pela seca. O pernambucano Superbarroco, de Renata Pinheiro, apóia-se justamente no conceito de seu título para mostrar, com a ajuda de sofisticados efeitos e projeções de imagens, a solidão de um homem pobre (Everaldo Pontes, de Siri-Ará) e seus delírios que tornam a vida suportável.
Redação Terra
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