Festival de Brasília 2008

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Festival de Brasília 2008

Terça, 25 de novembro de 2008, 07h58

'Lance Maior' é um filme profético, diz o diretor Sylvio Back

Orlando Margarido
Direto de Brasília

Quando for exibido na noite desta terça-feira, no encerramento da 41ª edição do Festival de Brasília, antes da premiação dos Candangos, é provável que Lance Maior renove as reações de duas sessões que marcaram a trajetória do filme.

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Uma delas relaciona-se à estréia do primeiro longa-metragem de Sylvio Back em Curitiba, cidade onde foi filmado. A outra projeção ocorreu justamente na mostra brasiliense em 1968, quando participou da competição com concorrentes de peso como O Bandido da Luz Vermelha. São, portanto, duas celebrações, a de 40 anos do filme e a de 20 de ótima receptividade no festival, segundo o cineasta.

"Em ambas as exibições houve uma repercussão impressionante por parte de uma platéia jovem; é o que eu gostaria de rever amanhã, pois Brasília se marca por essa juventude presente e exigente", relembra o diretor.

Há outras novidades para se saudar em relação ao filme, agora restaurado a partir de um negativo de salvaguarda. Lance Maior também acaba de ganhar a publicação de seu roteiro pela editora Imago. O lançamento deveria ocorrer em Brasília, mas segundo o diretor o livro não ficou pronto a tempo. Será, então, lançado oficialmente dia 4 de dezembro em São Paulo e na seqüência, dia 17, em Curitiba.

A brochura vem acompanha de extras, como um ensaio do próprio Back reavivando a construção do roteiro, e da estudiosa do filme Rosane Kaminski. Há ainda o adendo luxuoso das fotos de cena de Hélio Silva, fotógrafo do filme. "A publicação acompanha o capricho técnico que sempre fiz questão de ter em meus filmes; detesto miséria no acabamento", diz Back.

Mas ao menos por agora, o que interessa ao público é o que estará na tela do Cine Brasília. Lance Maior é um "peixe fora d'água", como diz Back, do período em que foi gerado, tanto relativo à história política do país como à cinematografia brasileira daquele momento, e por fim da própria carreira do diretor. "Imagine fazer um filme urbano, sobre jovens da classe média e seus sonhos de ascensão social num momento em que se proclamava o AI-5, ou seja, em plena ditadura militar; entre o impacto e a revolta, as pessoas vinham me dizer que era um filme de direita, que eu era de direita".

Naquele momento, cineastas como Roberto Santos - a quem o filme é dedicado, junto com Maurice Capovilla - e Luis Sérgio Person, em São Paulo, além de Antonio Carlos Fontoura, no Rio de Janeiro, consolidavam temática bem similar no eixo de suas respectivas capitais.

Com Lance Maior, Curitiba entrava nesse mapa cinematográfico, como aponta Back em seu texto para o catálogo do festival, sem manter uma ligação direta com esses realizadores.

"Claro que eu sabia o que eles estavam fazendo na época, o Roberto Santos vinha a Curitiba com freqüência; e havia a minha formação e atuação como cinéfilo e integrante de cineclube, que gostava de Truffaut (François Truffaut, diretor francês) e toda a Nouvelle Vague; mas o roteiro saiu sem influências diretas de minhas mãos e dois amigos". Back se refere aos jornalistas Oscar Milton Volpini e Nelson Padrella, que assinam o roteiro com argumento do diretor.

O drama urbano, por fim, surpreende para quem como Back seguiria no campo documental - ainda que o diretor não acredite na distinção entre as linguagens - deixando antes uma bem-sucedida experiência na ficção com Aleluia Gretchen, até hoje o filme referencial de sua trajetória.

A trama de Lance Maior nasceu de uma referência distante pela qual passaram os avós de origem alemã do cineasta, obrigados pelo nazismo a partir do país com um valor mínimo de dinheiro, uma regra no período para quem queria abandonar a Alemanha. A avó de Back costurou, então, uma soma significativa no forro do vestido e conseguiu chegar ao Brasil.

"Eles eram ricos lá e essa idéia de serem forçados a deixar a fortuna e recomeçar aqui sempre mexeu comigo; acho que isso tem a ver com a sedução da ascensão social e financeira que está no personagem do Mário". Mário é o protagonista de Lance Maior, interpretado por Reginaldo Farias. Bancário que sai da pequena Antonina - cidade paranaense onde Back morou - para tentar a sorte em Curitiba, ele conhece uma romântica e ingênua balconista (Irene Stefânia), com quem não quer mais que uma noite, ao mesmo tempo em que se encanta por uma estudante burguesa (Regina Duarte).

A reunião desses atores também ajudou a consagrar o filme, que tomou forma definitiva de produção com o apoio do produtor Antonio Pola Galante. Back viu Irene Stefânia um ano antes no filme de Carlos Alberto de Souza Barros, O Mundo Alegre de Helô. Farias vinha de sucessos como Cidade Ameaçada e Assalto ao Trem Pagador e Regina Duarte, em sua estréia no cinema, abria caminho para ser a namoradinha do Brasil com a novela As Minas de Prata.

Também nos primeiros papéis da tela grande está Isabel Ribeiro. "Inclusive por esses nomes e por não ter relação com o Cinema Novo ou nenhuma outra linguagem ou estilo cinematográfico daquele momento, acho o filme profético, de um frescor que não sei se é possível repetir em meu cinema", diz Back.

Especial para Terra

Divulgação
Irene Stefânia alavancou o sucesso de <I>Lance Maior</i>
Irene Stefânia alavancou o sucesso de Lance Maior

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