
Atualizada às 14h44 Orlando Margarido
Direto de Berlim
Há sempre uma cena impactante pela beleza e pelo significado nos filmes do grego Theo Angelopoulos, o nome mais internacional do cinema de seu país depois de Costa-Gavras, radicado na França e também presente na Berlinale na seção não competitiva.
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Em O Olhar de Ulisses, por exemplo, há a impressionante seqüência de corpos humanos pendurado numa enorme cerca de arame. No caso de The Dust of Time, sua mais recente produção, uma multidão de operários sobe lentamente uma escada numa campo de trabalhos forçados.
O Terra, na entrevista do diretor com alguns jornalistas, destacou a cena como a mais poderosa metáfora do filme. Angelopoulos polidamente discordou e apontou que é outra, tão ou mais significativa a ponto de estampar o material de imprensa do filme e gerar o maior interesse na coletiva com jornalistas.
Trata-se do momento em que Willem Dafoe, no papel de um diretor de cinema, adentra uma sala de hotel para lá encontrar vários televisores danificados e o desenho de um jovem com asas em direção a uma terceira asa. A referência ao herói Ícaro e seu vôo em direção ao sol é óbvia, mas a terceira asa nem tanto.
"Acredito que para tudo, inclusive para os problemas no mundo em que vivemos, há sempre que se procurar uma terceira, quarta, enfim, infinitas visões para as coisas; temos que ampliar nosso pensamento, sempre considerar que existem várias interpretações possíveis para tudo".
A seqüência pode ser até mais bonita e exemplar como quer Angelopoulos, mas a questão que se impõe é como o cineasta as pensa e constrói no set. "Não tenho essas cenas prontas na cabeça antes de filmar, ou começo a perseguir uma que seja necessariamente signficativa ou impactante como você diz; apenas elas surgem naturalmente quando se tem de expressar em imagens aquilo que se persegue como tema", justificou.
Angelopoulos é um esteta, além de um pensador contemporâneo movido em grande parte pela mitologia ancestral de sua cultura. Trata o cinema não só como um profissional dele, mas também um amante. Na coletiva, lembrou que trabalhou muitos anos na Cinemateca Francesa, em Paris, e isso ajudou a construir seu olhar também de cinéfilo.
E hoje, o que ele vê e gosta do cinema contemporâneo? "Tenho assistido a poucos filmes pois minhas produções levam muitos anos de trabalho, com diversas locações etc; mas gostei muito de um filme do turco Nuri Bilge Ceylan, Três Macacos; também vi Entre os Muros, que achei importante ter sido feito como documento social, mas como cinema é medíocre", atestou, sobre esses dois filmes devem estrear em breve no Brasil.
Mas ao ser lembrado pelo Terra de outro cineasta com que divide semelhanças nos filmes, ele abre os braços e diz: "Adoro Manoel de Oliveira, adoro; trabalhos com mitos e os mitos seculares sempre se repetirão na história da humanidade".
Especial para Terra
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Getty Images
O cineasta grego Theo Angelopoulos
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