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 "Gosto de me arriscar nos gêneros do cinema", diz François Ozon
05 de setembro de 2010 12h36

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François Ozon e Catherine Deneuve na première do filme  'Potiche' em Veneza. Foto: Getty Images

François Ozon e Catherine Deneuve na première do filme 'Potiche' em Veneza
Foto: Getty Images

Orlando Margarido
Direto de Veneza

François Ozon chega meia-hora atrasado à entrevista na suíte do hotel Excelsior, um dos endereços oficiais do festival onde o diretor francês está hospedado. Segura um croissant, pede um chá e se desculpa com o grupo de cinco jornalistas, no qual o Terra está incluído, dizendo que acabava de acordar. É meio-dia no horário local e ele diz esperar que a conversa seja bem-humorada. Não há como não ser.

Potiche, seu filme integrante da competição oficial e tema do bate-papo, é uma grande diversão marcada pela tradição da comédia ligeira de Billy Wilder, por exemplo, a quem Ozon logo lembra como sua influência, especialmente em Se Meu Apartamento Falasse. Também é veículo para a estrela Catherine Deneuve brilhar, sobre quem diz ter sido fundamental para o projeto sobre dona de casa dos anos 70 dedicada à casa e ao marido que faz sua pequena revolução. "O que dizer de trabalhar com ela, com toda sua experiência? Ela já conhece tudo sobre atuar, basta ela se encantar pelo personagem e está feito", diz o diretor.

Mas o que chama mais atenção na sua ideia de adaptar uma peça do teatro de boulevard, movimento muito popular na França, é a desenvoltura do cineasta em mudar de gênero. Seu filme anterior, O Refúgio, previsto para estrear no Brasil no próximo dia 10, traz o drama de uma jovem que decide ter o filho do namorado morto contra a vontade da rica família dele. É o irmão gay deste que acaba por apoiar a garota.

Homossexual assumido, Ozon diz ao Terra ao final da entrevista que foi simplesmente a vontade de trabalhar com uma atriz grávida (no caso Isabelle Carré) a razão de realizar um filme. "É verdade que muitas vezes há temas sobre gravidez e bebês nos meus filmes, mas eu não tenho intenção nem de tê-los ou adotá-los", brinca.

Potiche não tem bebês, mas trabalha num registro extravagante de cenários e figurinos coloridos próprios de uma homenagem a um período que o diretor, de 42 anos, conheceu por filmes populares da televisão. Ele, assim, resgata o tom de 8 Mulheres, também com Deneuve no elenco. Ozon garante não ter uma regra para adotar um gênero específico para o projeto seguinte, apenas fica atento a intuição e possíveis influências exteriores. "Mas claro que gosto também de me arriscar nos diferentes gênero, é para isso que o cinema serve".

No caso de Potiche, como disse na coletiva de imprensa ontem, o ponto de partida foi o embate eleitoral na França entre os candidatos Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal. "Percebi uma atitude ainda muito chauvinista e misógina, tanto da esquerda como da direita e então me lembrei da peça, que ficou muito tempo em cartaz em Paris; era perfeita para representar isso, ainda que nos anos 70, pois as coisas não mudaram muito desde então'. Não acredita, no entanto, que o público terá uma visão política do filme. 'Há piadas e frases que só os franceses entenderão, por ter relação com os nossos políticos; mas acho que o que salta mais da tela é a sátira, o riso, a alegria dos personagens e seus intérpretes".

Não é difícil entender também sua preferência por algumas musas, como Charlotte Rampling, atriz de três de seus filmes, e agora Deneuve. "É inevitável quando se trabalha com atrizes desse nível não trazer a história, o passado delas para o filme", diz Ozon. Ele concorda com as referências que permeiam a fita, como Os Guarda-Chuvas do Amor, musical de Jacques Demy de 1964, ou mesmo A Bela da Tarde (1967), de Luis Buñuel. O primeiro está relacionado à fabrica de guarda-chuvas onde a trama de Potiche se passa, e o segundo na lembrança da jovem burguesa que se entrega a homens num bordel parisiense, numa trajetória similar revelada pela personagem principal Suzanne. Ambos, claro, protagonizados por Deneuve. "Nem foi preciso lhe dar muitas dicas do personagem; ela é que trouxe mais qualidades e fez crescer Suzanne, nos deixando maravilhados no set."

Especial para Terra