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 Veneza: Filme surpresa narra passado da China comunista
06 de setembro de 2010 14h14

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Cena do filme 'Le Fossé'. Foto: Divulgação

Cena do filme 'Le Fossé', de Wang Bing
Foto: Divulgação

Orlando Margarido
Direto de Veneza

Em 1950, homens por alguma razão não afinados com os ditames da China comunista, efetivos traidores ou injustamente considerados como tal eram enviados para o deserto de Gobi para a chamada reeducação. E como se dava esse processo? Basicamente trabalho forçado, cavando fossas sem utilidade aparente, comida ruim quando havia e péssimas condições de vida. O resultado eram centenas de mortes e cadáveres enterrados quase na superfície do pedregoso terreno do lugar. Pior talvez para quem procurava sobreviver. Apelava a um rato para o prato do dia e mesmo ao canibalismo. Parece uma tragédia saída de alguma mente torturada, e que gosta de torturar o espectador, mas é real, como mostrou o diretor chinês Wang Bing esta manhã em Veneza em seu pungente drama ficcionalizado.

Seu filme Le Fossé foi a atração surpresa desta edição do festival, programa indigesto para os jornalistas logo cedo, às 8h30 no horário local. O título em francês (que pode ser traduzido como fossa, ou um buraco na terra, onde os trabalhadores moram) se deve ao fato de ser uma produção feita eminentemente com dinheiro da França. Difícil imaginar que o diretor, documentarista respeitado que participou do projeto coletivo O Estado do Mundo, poderia ter conseguido financiar o filme em seu próprio país. No mínimo, uma história degradante e vergonhosa ao regime comunista do país.

Mas Bing preferiu, contra todas as expectativas, contrariar esse senso e disse na coletiva de imprensa que nunca pensou em afrontar o governo com o filme. Mesmo se alterou ao ser questionado de como o projeto seria recebido na China. "Não fiz esse filme como ato político, de protesto ou denúncia, para cobrar as autoridades chinesas", disse. "Quero recuperar a história e a dignidade daquelas pessoas que sofreram no campo de trabalho". Ele se refere ao campo de Jiabiangou, cujos sobreviventes ele entrevistou entre 2005 e 2007 para realizar o drama, além de se basear num romance sobre o local escrito por Xianhui Yang.

Bing fez questão de dizer ainda que não trabalhou de modo clandestino, como se chegou a se supor depois da exibição desta manhã. "Não existe esta clandestinidade que se supõe no cinema chinês; todos nós trabalhamos com liberdade criativa e quem quer pode ir buscar suporte financeiro ou estrutural para realizar seu filme."

Especial para Terra