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 Comédia de tom negro é sobre passado doloroso da Espanha, diz cineasta
07 de setembro de 2010 13h35

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Pôster de 'Balada Triste de Trompeta', de Alex de La Iglesia. Foto: Divulgação

Pôster de 'Balada Triste de Trompeta', de Alex de La Iglesia
Foto: Divulgação

Orlando Margarido
Direto de Veneza

Para Alex de La Iglesia, cineasta espanhol que é dos mais irreverentes em atuação no momento, a Espanha da Guerra Civil e do franquismo pode ser traduzida no confronto de dois palhaços, um alegre e outro triste, pelo amor de uma belíssima contorcionista de circo. Parece uma ideia sem sentido e extravagante? Então espere por muito mais em Balada Triste de Trompeta, o novo filme do diretor de O Dia da Besta, Perdita Durango, Crime Ferpeito e A Comunidade, todos exibidos em mostras ou no circuito brasileiro. Como estes, o título concorrente ao Leão de Ouro vem recheado de humor negro, politicamente incorreto, fantasia e violência exagerada. A plateia de jornalistas, nem sempre afeita a esse tipo de comédia destemperada, se dividiu e mesmo a imprensa espanhola ficou longe da unanimidade.

Compreende-se quem não acolha totalmente a proposta de La Iglesia. Ele está sempre além do limite em todos os gêneros que arrisca dentro da mesma história e não faz questão da veracidade. Mas é muito mais divertido comprar seu estilo e entrar na dança, inclusive para a reflexão que o filme pede. Sim, a postura reflexiva existe no contorno histórico que acompanha o personagem Javier (o ótimo gordinho Carlos Areces), herdeiro da tradição de palhaço triste do pai, cujo trabalho no circo é abruptamente tolhido pelo golpe do estado realizado por militares rebeldes ao governo democrático nos anos 30. A ação dá início à chamada Guerra Civil Espanhola, que terminará com a chegada ao poder do ditador Francisco Franco (1892-1975).

É sob esse painel que o jovem Javier encontrará seu lugar num circo e se encantará por Natalia (Carolina Bang), mulher do proprietário Sergio (Antonio De La Torre), homem rude e violento com quem terá uma disputa de vingança. Apesar do contexto cômico e melodramático, La Iglesia mantém um pezinho na realidade, e encena mesmo o atentado a bomba pelo ETA que matou o primeiro-ministro Luiz Carrero Blanco em 1973. Da mesma forma, o final estrepitoso ocorre no conhecido Vale dos Caídos, monumento em Madri a todos que morreram nos conflitos, sejam fascistas ou comunistas.

La Iglesia abriu a conferência com a imprensa hoje dizendo tratar seu filme como uma história de amor. "E como todas as histórias de amor, esta também tem dor e horror, pois é dessa conjugação de que se faz a vida", disse. Mas obviamente não demorou que o tom político fosse colocado em pauta. Perguntado porque decidiu contar um romance extravagante sob o contexto franquista, e se assim deveriam fazer outros realizadores espanhóis, o diretor foi preciso. "Cresci acostumado a censura na televisão, a abrir a janela aos domingos e ver gente correndo da polícia e achava tudo isso normal; mas isso é um passado doloroso nosso e temos exorcizá-lo de todas as formas possíveis e o cinema é uma delas".

Ele lembra ainda que este passado condicionou o presente e que o povo espanhol sempre sofrerá com a tortura perpetrada naquela época. "Por isso o personagem principal, o palhaço espanhol, vai aos poucos se transformando, buscando vingança; está destroçado e tem a ira e a ânsia pela destruição, que leva a agonia e angústia". Para o cineasta, finalizou, a hostilidade e o sofrimento fazem parte da vida e as ditaduras demonstram isso muito bem. Mas como a diversão sobrepuja todo esse quadro político, muitos jornalistas já comentavam após a sessão que o filme é prato cheio para o gosto pop do presidente do júri Quentin Tarantino e não será estranho, ou por isso mesmo será, se La Iglesia sair com um prêmio significativo do festival.

Especial para Terra