Cena do filme 'Noi Credevamo'
Foto: Divulgação
- Orlando Margarido
- Direto de Veneza
Foi a prova mais difícil para a imprensa que acompanha a competição deste ano em Veneza. E bem pouco dessa representação compareceu hoje, às 8h15 da manhã no horário local, para as três horas e meia de Noi Credevamo (nós acreditávamos, na tradução literal), ambicioso mergulho na história do "risorgimento", ou ressurgimento, o período de unificação dos vários estados independentes que tomou conta da Itália entre 1831 e 1929. Havia poucos espectadores nas duas salas previstas para a exibição e ainda sim houve desistências consideráveis. O filme de Mario Martone nem por isso pode ser considerado ruim. Pelo contrário, tem dignidade e substância para quem se deixar cooptar por sua exigência.
Exigente porque Martone, cineasta desconhecido no Brasil que tem uma obra de traços políticos engajados, vai fundo nas discussões do complexo quadro de interesses daquele período, dividindo republicanos e monarquistas. Eram oito estados com fronteiras em constante questionamento, alguns controlados pelo Áustria, como os do norte, o chamado Piemonte. Para dar conta do que se passou nessas disputas, o diretor elege um grupo de personagens fictícios, como os três irmãos Cappozoli, que vão conviver com nomes reais importantes nesse movimento, a exemplo do líder republicano Giuseppe Mazzini, a nobre Cristina de Belgiojoso e o jornalista Antonio Gallenga. Prefere a cenas de debates e exposição de ideias à ação, mostrada em poucos momentos da luta do libertador Garibaldi. Personagens como Domenico (Luigi Lo Cascio), um dos irmãos, será visto em todo o painel, inclusive na derrocada da luta.
Filme que não busca polemizar, Noi Credevamo passou sem grandes controvérsias na conversa entre equipe e jornalista nesta tarde. Martone disse que fez o filme por achar necessário recuperar para a nova geração toda a documentação existente sobre o período, especialmente as cartas escritas entre os envolvidos, fonte principal do projeto. "Esse período não pode ficar como um fato de livros de história, pois explica muito sobre a Itália do presente", apontou. "Eu pretendo que o filme dialogue com tudo que estamos passando hoje nesse país".
- Especial para Terra


