Cena de 'Road to Nowhere'
Foto: Divulgação
- Orlando Margarido
- Direto de Veneza
O diretor Monte Hellman considera que Road to Nowhere, filme exibido nessa quinta-feira (9) na mostra competitiva em Veneza, é efetivamente seu primeiro trabalho. "Os anteriores sempre foram projetos de encomenda, para os quais eu era contratado; agora realizei um projeto pessoal", disse na entrevista coletiva deste início de tarde no Lido.
Pessoal pelo estilo e a linguagem utilizados, mas com origem numa forte terceira e muito particular. Hellman adapta o roteiro de Steven Gaydos, que o escreveu a partir de um sonho. "O sonho dele então passou a ser o meu".
Quem sabe por essa origem um tanto enigmática muitos jornalistas comentaram a dificuldade de compreensão da trama, que se serve da metalinguagem para mostrar a realização de um filme dentro do filme. Não bastasse, há cenas em que o protagonista assiste a filmes de referência na história do cinema, como o espanhol O Espírito da Colmeia, de Victor Erice, que disse ter conhecido por indicação do fotógrafo Nestor Almendros.
Perguntou-se se Hellman teve a intenção assumida de esconder algo do espectador na história de jovem diretor que filma o fato de um suposto suicídio de amantes no interior americano. Hellman, então, citou o poeta e diretor francês Jean Cocteau. "Ele dizia que toda arte tem de ter o toque da dificuldade, estabelecer alguma conexão com o público que o deixe intrigado e o faça visitar o filme várias vezes; eu gosto de uma piada que fizeram com o filme, de que não se pode vê-lo apenas duas vezes".
Para ele, o drama da produção do filme pelo qual passa o protagonista é, como acontece com o próprio Hellman, o desafio de realizar um sonho. "E isso tem muito de ambigüidade, como tudo que se sonha vida, o que pode gerar essa sensação de não entendimento".
Road to Nowhere foi exibido ontem na presença de Quentin Tarantino, presidente do júri desta edição. Uma distinção porque foi Hellman quem praticamente o descobriu ao produzir Cães de Aluguel.
Lembrado pelo fato de estar agora sendo julgado por um amigo, o veterano cineasta de 78 anos e não mais de vinte filmes na trajetória disse confiar na seriedade do pupilo. "Tenho certeza que ele saberá separar as coisas e fazer um julgamento prudente".
Mas também refletiu sobre festivais, competição e prêmios. "Eu participei de um júri com Jean Renoir (importante realizador do cinema francês, já morto) em que ele distribui prêmios para todos os filmes participantes, justificando que todos tem sua qualidade", contou. "Os organizadores ficaram bravos, mas eu concordei com ele, pois não se pode comparar um filme a outro".
Sobre a independência que mantém de Hollywood, realizando filmes de baixo orçamento em longos intervalos sem produzir, Hellman diz que não saberia fazer de outra forma. "Entre liberdade e dinheiro, eu fico com a liberdade."
- Especial para Terra


