Sofia Coppola recebe prêmio de Quentin Tarantino numa premiação sem surpresas
Foto: Reuters
- Orlando Margarido
- Direto de Veneza
Um bom festival não se faz apenas de surpresas, boas ou más, mas principalmente pela capacidade de apontar uma tendência, um rumo, um novo olhar para o cinema. Nesse sentido, a 67ª edição vai ficar na história de Veneza somente pelo fato de contornar as expectativas mais seguras. A primeira delas seria que pela visão conhecida e reconhecida de Quentin Tarantino, presidente do júri, a cinematografia oriental pop causaria estrondo por aqui e isso ecoaria na premiação. Nada disso. Nem um leãozinho para as extravagantes artes marciais chinesas ou a matança generalizada por samurais. Apenas talvez um olhar irreverente, e mesmo merecido na direção e no roteiro, sobre o extravagante cinema de Álex de la Iglesia.
A trupe de Tarantino formada pelos cineastas Guillermo Arriaga, Gabriele Salvatores e Luca Guadagnino, os compositores Arnaud Desplechin e Danny Elfman, além da a atriz Ingeborga Dapkünaite, preferiu o caminho seguro, sensato no que diz respeito a uma idéia comum. Premia-se veteranos e nomes de prestígio como Monte Hellman, justificável pela carreira, mas também Jerzy Skolimovski, como se fosse mais pela chance que não se pode deixar passar do que pelos filmes, nenhum a altura do talento dos cineastas. E passa-se quase ao largo da ousadia e da novidade, quando se lembra um trabalho polêmico como Silent Souls apenas pela contribuição técnica do fotógrafo Mikhail Krichman. Melhor que um certo equilíbrio se faz ao lembrar do frescor e representação de contrastes - no caso de um país solar que surge sombrio - ao conceder o premio de atriz a jovem Ariane Labed, do filme grego Attenberg.
Mas inevitável pensar no que se esconde por trás de um principal Leão de Ouro para um filme de qualidade como Somewhere. Qualidade essa, diga-se, dentro das medidas confortáveis de um filme americano de tom independente e não mais. Também não se trata de alimentar uma conotação de intimidade com ares de fofoca entre o presidente do júri e a diretora Sofia Coppola, que já estamparam a mídia com um romance. Trata-se, isso sim, de efetivar a mesmice da produção americana frente primeiro a existência da diversidade, de cinematografias mais criativas, e segundo a uma linguagem e narrativas convencionais. Na coletiva de imprensa após a premiação, Tarantino garantiu a unanimidade da escolha, o que parece ainda mais preocupante que ninguém no grupo de jurados tenha aberto uma fresta ao inovador, à surpresa. Essa sim, do tipo de surpresa que Veneza, mais que Berlim e Cannes, precisa para recuperar um antigo prestígio em baixa.
- Especial para Terra


