| Divulgação |
![]() |
| Cena do filme |
De quando em quando, um cineasta tenta captar os ritmos e a beleza do cotidiano que a maioria das pessoas vive sem mesmo se dar conta do que faz. Outros cineastas procuram retratar o ambiente em que vive a população trabalhadora, dominado pelo pessimismo que corrói a alma.
Anti-Herói Americano, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, é baseado nos livros de quadrinhos autobiográficos do mais famoso arquivista de Cleveland, Harvey Pekar, e consegue fazer as duas coisas à perfeição. É um filme extraordinário.
Pautando-se pelo lema de Pekar segundo o qual "a vida comum é uma coisa complexa", os dois documentaristas, em seu primeiro longa, encontram um veio riquíssimo de drama, humor, amor, esquisitices, turbilhões psicológicos, problemas comuns, traumas reais e triunfo artístico.
Os admiradores de Harvey Pekar são poucos, mas depois deste filme da HBO sobre o quadrinista e sua série impressionante de livros, eles certamente irão aumentar em muito.
O filme traz imagens do Harvey Pekar real, que faz a narração em voz rouca, e as mistura com o Harvey Pekar fictício, sua mulher e sua filha adotiva, representados respectivamente por Paul Giamatti, Hope Davis e Madylin Sweeten.
Também há imagens de arquivo das participações de Harvey no programa de TV Late Night With David Letterman e uma versão de Anti-Herói Americano para o palco.
Obsessivo-compulsivo que enche sua casa com milhares de livros e LPs antigos, Pekar vive uma vida tediosa como arquivista de hospital em Cleveland.
Numa liquidação de garagem, ele conhece o quadrinista Robert Crumb, e os dois ficam amigos. Quando Crumb ganha reconhecimento internacional por seus quadrinhos underground, que rompem tabus, Harvey se anima a criar seus quadrinhos próprios.
Como não sabe desenhar, ele enche os quadrinhos com figuras que lembram palitos e com relatos intransigentes sobre as provações da vida. Crumb gosta tanto de suas histórias que passa a ilustrá-las.
Almas gêmeas
Depois da publicação do primeiro livro de quadrinhos American Splendor (nome original do filme), em 1976, outros ilustradores passam a colaborar com Harvey, fazendo sua aparência mudar com frequência nas histórias.
Os livros não lhe garantem fama nem fortuna, mas lhe trazem uma carta de Joyce Brabner (Hope Davis), dona de uma livraria de HQ em Delaware, que, depois de muitas conversas ao telefone, acaba indo até Cleveland. Quase imediatamente os dois percebem que são almas gêmeas e se casam.
Deslocando-se a todo momento entre o visual neo-realista de American Splendor e os segmentos mais artificiais, quase documentais, os cineastas recriam em tom de brincadeira o ponto de vista dos quadrinhos sobre a vida de Harvey e o bairro operário em que vive.
Baseado na idéia de que a vida se observa melhor nos detalhes, o filme analisa de perto coisas pequenas que revelam mentalidades e atitudes inteiras.
O pessimismo de Harvey e suas obsessões e frustrações, as coisas que o deixam doente e o ajudaram a quase perder sua voz, acabam por enriquecer sua arte narrativa.
Harvey Pekar pode ter feito o papel de bufão com David Letterman, mas na realidade era um intelectual grunge. E a bagunça e o aspecto comum de sua vida são imensamente atraentes, quando vistas do ângulo apropriado.
Reuters