| Divulgação |
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| Cena do filme |
A grande ousadia de Dogville, do dinamarquês Lars von Trier, que inventou o movimento Dogma 95, foi compor um filme que aposta nos mais puros recursos do teatro pobre.
Não há cenário algum, apenas um chão de madeira, com pouquíssimos objetos de cena e linhas pintadas no chão que definem as ruas e casas. O corpo dos atores, sua força expressiva e os diálogos completam o filme.
A cidadezinha de Dogville, onde acontece a história, não passa de um arcabouço para os olhos de platéias cinematográficas viciadas na profusão de efeitos especiais e montagem de videoclipe. Nada disso acontece aqui.
Não há portas nem janelas em Dogville, mas os personagens se comportam como se elas estivessem lá - há mesmo o som, quando um deles entra na casa do outro. E a platéia logo compartilha dessa cumplicidade que é, afinal, o que constrói o fascínio da ficção.
O filme de von Trier é como uma fábula moral, que traz uma heroína feminina que sofre o diabo. Ela é a protagonista Grace (Nicole Kidman), uma fugitiva de gângsters não-identificados que procura refúgio na vilazinha, um lugar isolado, onde as pessoas construíram um mundo à parte e de padrões morais estreitos.
Grace cai como uma fresta de luz nestas vidas mofadas. E pede refúgio, um pedido a princípio recusado, mas finalmente aceito, depois da intermediação de Tomas Edison Jr. (Paul Bettany), o intelectual da aldeia que de certo modo desafia os comportamentos tacanhos ao seu redor.
Mas há duas partes na epopéia de Grace. Na primeira, ela é aceita ao se tornar útil a cada um dos moradores, oferecendo sua companhia a um homem cego que não admite a cegueira (Ben Gazzara), colhendo maçãs para um sitiante (Stellan Skaarsgard) ou cuidando do pomar da mal-humorada Ma Ginger (Lauren Bacall).
Quando se intensifica a procura da polícia e dos gângsters à fugitiva, a cidade se torna mais avarenta e cobra um preço mais alto de Grace. O filme se torna mais sombrio até o terceiro ato, que cobra escolhas radicais na transformação da heroína.
Redação Terra