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| Cena de Tróia |
Tróia é uma história de heroísmo e derrota vergonhosa que se desenrola em grande escala, com uma armada de mil navios, exércitos enormes, egos imensos e paixões vulcânicas. Ou, pelo menos, é essa a intenção do filme.
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Na realidade, conforme é executado pelo diretor Wolfgang Petersen, que supostamente teria as credenciais necessárias para fazer filmes sobre guerras, Tróia vira uma história longa, que não chega a envolver o espectador por completo.
Os personagens lutam por questões que o público talvez tenha dificuldade em achar instigantes e nenhuma figura central emerge para assumir o controle.
Fica claro que a Warner Bros. financiou este filme caro - que, ao que consta, teria custado US$ 175 milhões - na esperança de repetir o sucesso de Gladiador nas bilheterias.
A escolha do loiro e malhado Brad Pitt no papel do herói grego Aquiles com certeza fortalece suas chances de sucesso mundial, mas as batalhas lembram as colisões frontais que se vêem em partidas de rúgbi, e o drama não chega a cativar.
Tróia é inspirado em A Ilíada, o poema épico de Homero sobre o cerco grego à cidade de Tróia.
Os responsáveis pelo filme escolheram a palavra "inspirado" com cuidado. Não apenas boa parte da história do filme deriva de fontes literárias da antiguidade que não são Homero, como o roteiro toma liberdades muito grandes com a mitologia grega. Petersen e o roteirista David Benioff simplesmente tiraram da história Zeus e todo os deuses do Olimpo.
É verdade que seria virtualmente impossível simular na tela a família disfuncional de imortais egocêntricos que compõe o panteão politeísta grego.
Mas remover os deuses de algo que, afinal de contas, é um mito grego equivale a destripar a história. Ao retirar o elemento do divino, a história perde seu senso de destino e tragédia.
O Deus de Hollywood
Os gregos acreditavam totalmente em seus deuses. Quando diziam que um herói combatia "como um deus", muitos se indagavam se ele não poderia ser filho de um deus, e portanto, invencível.
E, na ausência de deuses, um líder que dá ouvidos a sábios e augúrios fica parecendo mais tolo do que sábio, como parece em Homero. Os deuses formam um elemento chave da psicologia dos homens da época, e esse elemento está ausente em Tróia.
Em lugar disso, temos o deus de Hollywood que é Brad Pitt se exibindo para as câmeras como Aquiles, que combate apenas por si mesmo e pela glória futura de seu nome.
Seu inimigo, o defensor de Tróia, é Heitor (Eric Bana) - aqui, como em Homero, a figura mais simpática da história. Mas o filme o mostra "domesticado" demais.
Não há nada de errado em vermos Heitor como homem de família e de honra, mas ele passa tempo demais dentro de casa. Bana não é um ator especialmente atlético, e suas lutas dão a impressão de serem encenadas. E o roteiro nunca lhe permite tomar seu destino em suas próprias mãos.
A lendária guerra de Tróia começa por volta de 1.200 a.C., quando Paris (Orlando Bloom, bonitinho demais no papel), príncipe de Tróia e irmão menor de Heitor, sequestra Helena (Diane Kruger), a belíssima esposa de Menelau (Brendan Gleeson), o brutal rei de Esparta.
O astuto irmão de Menelau, Agamenon (Brian Cox), rei de Micenas, une as tribos gregas rivais para atacar Tróia, não tanto para vingar a honra da família quanto para incluir em seu império a cidadela até então intocada que era Tróia.
Dentro da cidade murada, o velho rei Príamo (Peter O Toole) conta com a proteção das maciças muralhas da cidade, de seu filho Heitor e do deus Apolo para garantir a segurança de seu povo.
Cavalo de Tróia
Há grandes sequências criadas por Petersen, como a armada (criada com efeitos especiais), as batalhas entre os dois exércitos e o truque do cavalo de Tróia (copiado de A Eneida).
Elas são impressionantes como quadro geral, mas lhes falta algo nos detalhes. As coisas melhoram nas cenas de combates homem a homem.
As cenas mais íntimas do filme, entre generais em conflito ou famílias que correm perigo, atolam em diálogos rígidos ou até piegas.
Quando Paris entra escondido no quarto de Helena, enquanto o marido dela bebe no andar de baixo, e ela diz que "ontem à noite foi um engano", a cena não convence.
A performance dos atores é boa, mas falta complexidade aos personagens. Alguns, como Sean Bean no papel de Odisseu e O Toole como o rei Príamo, são magistrais. O Aquiles de Brad Pitt é tão egocêntrico que torna-se até divertido.
Há uma cena boa entre O Toole e Pitt perto do final do filme, e o olhar no rosto de O Toole quando vê sua cidade ardendo em chamas é atuação perfeita. A maior parte do filme, porém, se caracteriza pela ausência de cenas ou mesmo momentos memoráveis.
Reuters