| Divulgação |
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| Cena do filme |
Em um cenário todo branco e sem diálogos, com prateleiras e carrinhos iguais aos de um supermercado, o diretor paulista Marcelo Masagão faz uma reflexão sobre os limites do consumismo.
Ele considera seu filme 1,99 - Um Supermercado que vende Palavras seu primeiro trabalho de ficção.
Embora seja discutível que seus trabalhos anteriores, como Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos e Nem Gravata Nem Honra, possam rigorosamente ser enquadrados como documentários, este trabalho explora com certeza um território novo para o cineasta.
Há pelo menos uma linha ficcional mais explícita para colocar dentro deste supermercado. Os frequentadores do lugar, homens, mulheres, crianças, velhos e moços, só têm à disposição caixas de vários tamanhos, onde se lêem slogans, frases prontas, palavras ou apenas letras.
Muitas das referências à publicidade são reais e foram usadas com autorização de empresas creditadas nos letreiros iniciais.
Não há diálogos, mas cria-se uma série de situações dramáticas onde estas pessoas, também vestidas de branco, se relacionam. Do lado de fora outras tantas, vestidas com as cores e com os níveis de elegância da vida real, que simbolizam os excluídos.
De tempos em tempos, uma patinadora - semelhante às consultoras de preços de alguns mercados - vai à porta e seleciona novos consumidores.
De quando em quando, alguns outros são expulsos desse arremedo de paraíso asséptico e artificial, justamente na hora do pagamento, quando seu crédito se esgota.
Há vários momentos que sugerem a tentativa de uma parábola social, como quando se identifica na bagagem cultural de uma velha senhora referências além da publicidade.
Entretanto, ao lado da mulher, sobem na tela nomes como Freud, Buñuel, Fellini, Kubrick, enquanto ela, que nada pega em seu carrinho e se encaminha a um setor de geladeiras, instala-se dentro de uma delas, imitando outros velhos ao seu lado. Uma nítida sugestão de morte.
Outro momento em que a crítica social se mescla à psicanálise - esta última, uma inspiração assumida nos agradecimentos à "assessoria psicanalítica" de Andrea Masagão - é quando um homem passa seu cartão num caixa eletrônico, provocando reação sexual no rosto da mulher que aparece no visor. Uma insinuação de que o apego ao dinheiro vem substituindo o desejo.
Com certeza, trata-se do trabalho mais interessante do diretor até agora, embora a ausência de diálogos, a escolha de uma trilha sonora quase toda minimalista - com músicas de Wim Mertens e algumas participações de outro gênero de André Abujamra - e até a duração de 72 minutos possam mostrar-se um tanto árduas para uma parte do público.
Reuters