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| Ewan Mc Gregor em cena de Big Fish |
Peixe Grande é um tiro que saiu pela culatra. Ao mesmo tempo em que pretende ser mais leve do que o ar, cai por terra como um pára-quedas de concreto. O diretor Tim Burton, cuja carreira demonstra um grande dom para o surreal, desta vez errou na dose.
Em todo caso, não importa o que o espectador tenha pensado de seus dois trabalhos anteriores, Planeta dos Macacos e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça - nada poderá prepará-lo para a esquisitice desta história comprida e às vezes artificial.
O livro que deu origem ao filme - Big Fish, A Story of Mythic Proportions, de Daniel Wallace - diz respeito a um carismático cavalheiro sulista que, ao contar histórias sobre o passado, transforma sua vida quase numa odisséia homérica por um mundo de fábulas.
Embora exista um pequeno grão de verdade em cada história, essas narrativas se tornam o meio pelo qual Edward Bloom evita aproximar-se muito das pessoas. Representado com verve por Albert Finney, Bloom passou a vida usando sua excentricidade e seu charme jovial para manter as pessoas à distância.
Burton e o roteirista John August entremeiam as "histórias de pescador" de Bloom sobre suas aventuras juvenis (nas quais é interpretado por Ewan McGregor) com os esforços de seu filho, o jornalista Will (Billy Crudup), para descobrir o que há de verdade por trás das fábulas.
Cansado das narrativas esdrúxulas e de viver à sombra de seu pai, Will se casou com uma francesa (Marion Cotillard) e se mudou para Paris, onde trabalha para a agência de notícias Associated Press. Chamado de volta por sua mãe tolerante e amorosa, Sandra (Jessica Lange), para reconciliar-se com o pai à beira da morte, Will pretende separar o que é mito e o que é realidade de uma vez por todas.
Durante algum tempo, as imagens bizarras das histórias de Bloom atiçam a curiosidade do espectador. Uma tempestade deixa um carro preso no topo de uma árvore. Uma figura de mulher pálida e nua paira sobre um rio, à luz do luar. Um peixe grande engole a aliança de ouro de Bloom. Este passa por uma cidade isolada da qual ninguém vai embora, nunca.
Os personagens das histórias também são intrigantes. Há um gigante chamado Karl (Matthew McGrory) que mostra ser gentil e tímido, um diretor de circo (Danny de Vito) que vira lobisomem, duas cantoras coreanas que são irmãs siamesas e se juntam a Edward em suas viagens, e uma bruxa (Helena Bonham Carter) com olho de vidro que prevê como Edward vai morrer.
Mas as histórias nunca ultrapassam o status de imagens surreais. Elas ficam isoladas do contador de histórias e de sua família. São negações da realidade motivadas não se sabe por quais condições ou circunstâncias.
O que é ainda mais curioso no filme é que, quando Will começa a investigar as histórias - no livro ele se limita a relatar as histórias contadas por seu pai -, descobre que elas possuem, sim, um fundo de verdade. A cidade isolada existe de fato. Muitos dos personagens são reais, embora exagerados.
Ao insistir na realidade literal das invenções de Edward, o filme prejudica sua própria temática: a de um contador de "histórias de pescador" que, através da ficção, relata a verdade.
Site oficial do filme
Reuters