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| Charlize Theron em Monster |
Monster desafia o público com um retrato de autodestruição e violência terrível, em uma sequência que não dá descanso ao espectador. Dificilmente se vêem filmes americanos mais sombrios do que este.
O desafio é duplamente duro de encarar pelo fato de a roteirista e diretora Patty Jenkins ter decidido dar pouco em termos de contexto que situe e explique o comportamento da personagem-título.
Assim, este retrato da "primeira serial killer americana", que seria deprimente e chocante sob quaisquer circunstâncias, pode deixar perplexo o espectador que não estiver familiarizado com a história da assassina Aileen Wuornos.
A publicidade em torno da espantosa transformação física de Charlize Theron, que engordou e se enfeou para viver Aileen, pode atrair os curiosos, mas tudo indica que as perspectivas comerciais do filme serão moderadas, na melhor das hipóteses.
Patty Jenkins optou por focalizar apenas um período breve da vida de Aileen, de 1989 a 1990, quando a prostituta de beira de estrada matou vários clientes - crimes pelos quais acabou sendo executada na Flórida em 2002.
Durante esse período, ela conheceu Selby Wall (Christina Ricci). As duas se apaixonaram e começaram a viver juntas.
Transformar a história trágica de Aileen Wuornos em uma história de amor entre duas desajustadas provavelmente faz sentido em termos dramáticos, mas distorce a vida cruel que Aileen viveu praticamente desde que nasceu.
A partir de dois documentários de Nick Broomfield, sabemos sobre a mãe que abandonou a menina, sobre o avô que a espancava e sobre como todos seus relacionamentos subsequentes terminaram em traição, transformando-a, previsivelmente, em paranóica.
Sua vida até o momento em que conheceu Selby - uma vida marcada por estupro, incesto, abusos e abandono - praticamente não é mencionada no roteiro de Jenkins.
Selby representa a última esperança para Aileen. Depois de conhecê-la, num momento de desespero suicida, Aileen tenta mudar e procura um emprego normal.
Como ninguém quer contratar uma mulher que não tem experiência de trabalho, diploma ou currículo, ela volta a se prostituir.
Quando um de seus clientes parte para a violência, ela o mata a tiros, em defesa própria. Rouba seu dinheiro e seu carro. Mas, num primeiro momento, não diz nada a Selby.
Logo que o dinheiro acaba, ela passa a assaltar e matar vários outros clientes. Enquanto o dinheiro sustenta as duas mulheres, os assassinatos deixam Aileen extravasar o ódio que sente pelos homens.
Vale observar que, em seu julgamento, Wuornos alegou que matou todas as suas vítimas em defesa própria.
Em seus documentários, Nick Broomfield não conseguiu formar uma idéia clara sobre o que de fato aconteceu.
Antes de ser executada, sem saber que a câmera continuava ligada, Wuornos admitiu ter mudado sua versão, alegando assalto e assassinato, em lugar de defesa própria, para acelerar sua morte. Depois de 12 anos no corredor da morte, ela queria acabar com tudo logo.
Charlize Theron tem uma performance convincente e corajosa, adotando os tiques e a maneira de falar de Wuornos de maneira espantosa. Mas Aileen nunca deixa de ser uma figura distante do espectador.
Christina Ricci, em um papel com o qual é mais fácil sentir empatia, capta muito bem o elemento de exploração presente na relação das duas, representando a jovem que, apesar de realmente amar Aileen, precisa de dinheiro e estímulo constantes.
A história é repulsiva, sim, mas as atrizes comandam nossa atenção e exigem que enfrentemos esse "monstro" não arrependido para tomarmos consciência de sua humanidade.
Reuters