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Filmes
Paixão de Cristo, A

Título original
The Passion of Christ
Gênero Drama
Ano 2003
País de origem Jerusalém
Distribuidora Fox Filmes
Duração 127 min.
Classificação 14 anos
Língua Aramaic, Latim
Cor Colorido
Som DTS Dolby
Diretor Mel Gibson
Elenco Monica Bellucci, James Caviezel e Rosalinda Celentano
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Resenha
Polêmica à parte, A Paixão de Cristo é um belo filme
Divulgação
Paixão de Cristo - Jim Caveziel
A Paixão de Cristo é uma obra de um tradicionalista cristão. Ao retratar as últimas 12 horas da vida terrena de Jesus de Nazaré, Mel Gibson, dirigindo a partir de um roteiro que ele próprio escreveu em conjunto com Benedict Fitzgerald, interpreta os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João como sendo a verdade literal.

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Opine: Você acha que o filme pode provocar o anti-semitismo?

Não há qualquer indício de interpretação contemporânea, nem tampouco se leva em conta a possibilidade de os relatos dos evangelhos conterem mitos ou metáforas.

Este não é nenhum A Última Tentação de Cristo, a adaptação que Martin Scorsese fez do livro de Nikos Kazantzakis, especulando sobre os tormentos e as dúvidas de Jesus. A Paixão de Cristo é um ato de fé.

E esse próprio fato representa uma faca de dois gumes. As pessoas enxergarão o que quiserem no filme, destituído de qualquer ponto de vista que não esteja literalmente de acordo com os evangelhos.

Os verdadeiros crentes enxergarão em A Paixão uma transposição das escrituras sagradas. Outras pessoas - não cristãs, ou mesmo cristãs de visão menos literal - se sentirão perturbadas pela adesão total do filme a uma história e um conjunto de personagens que vêm sendo usados por fanáticos, há séculos, para alimentar o ódio.

A Paixão de Cristo é envolto em polêmica em torno de seu grau quase pornográfico de violência e seu potencial de incitar ao anti-semitismo. A combinação de curiosidade, controvérsia e convicção deve lhe garantir boas bilheterias por muitas semanas.

Sem contexto
O problema em se focalizar quase exclusivamente a "paixão" de Cristo - ou seja, seu flagelo e sua redenção final, que marcaram os derradeiros momentos de sua vida - é que o contexto em que esses fatos ocorreram se perde, na medida em que se deixa de retratar os ensinamentos e a vida de Jesus, em que ele pregou o amor por Deus e a humanidade.

A crucificação de Jesus foi não apenas o momento culminante de vários anos de ensinamentos religiosos, mas também o momento em que ele cumpriu sua promessa de morrer para redimir os pecados da humanidade.

É verdade que muitos espectadores já conhecem essa "história de fundo". Mas quem for ao cinema sem um conhecimento prévio do Novo Testamento sairá prejudicado.

Para essas pessoas, o punhado de flashbacks para momentos anteriores da história de Jesus não serão suficientes para a compreensão do contexto.

Mesmo um estudioso da Bíblia, porém, pode se perguntar por que Gibson escolheu mostrar tão pouco o amor e o auto-sacrifício envolvidos na submissão de Jesus à tortura e à morte.

O significado espiritual da crucificação de Cristo se perde na orgia de violência cometida contra seu corpo. Na verdade, é duvidoso que qualquer ser humano conseguisse se manter consciente de sua própria execução se fosse submetido ao grau de violência física mostrada tão explicitamente no filme.

Saco de pancadas
Assim, A Paixão de Cristo é uma representação medieval da Paixão de Cristo, mas com efeitos muito melhores. Vemos Cristo sendo açoitado em detalhes grotescos. Os fluidos corporais jorram, formando desenhos belos. A câmera lenta capta qualquer ação ou olhar que Gibson considera significativa.

Todos os personagens são retratados em extremos. Pôncio Pilatos (Hristo Naumov Shopov) é um político fraco e assustado, operando num bastião solitário do Império Romano.

Seus soldados são retardados sádicos e bufões. O rei Herodes (Luca De Dominicis) é decadente e cheio de maneirismos. Os judeus formam uma turba sedenta de sangue e facilmente manipulada pelo sumo sacerdote Caifás (Mattia Sbragia) e outros fariseus, ansiosos por proteger seu próprio poder político e controle social.

Gibson cortou do filme uma fala, supostamente presente numa versão anterior, em que um judeu grita "caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!"

As duas Marias, a mãe de Jesus (Maia Morgenstern) e Maria Madalena (Monica Bellucci), se reduzem a espectadoras debulhadas em lágrimas.

E, o que é difícil imaginar, a figura chave da história, o próprio Jesus (Jim Caviezel, recoberto de sangue) passa a maior parte do filme como saco de pancadas, a tal ponto que os responsáveis pelo filme perdem sua mensagem de vista.

Em cenas iniciais e nos flashbacks, Caviezel possui o olhar e a gravidade necessários para transmitir o rabino caloroso e cheio de misericórdia que Jesus de fato foi.

Mas só vemos alguns instantes dessa sua humanidade - um flashback bizarro focaliza exclusivamente sua ocupação anterior, a de carpinteiro.

Caravaggio inspira fotografia
O que mais perturba é a decisão de Gibson de retratar Jesus como vítima de intrigas políticas, com isso lhe privando de seu martírio.

Por que tantos discípulos seguem esse homem? O que significa a promessa de vida eterna que ele fez, dentro do contexto desses acontecimentos?

O foco intenso que Gibson volta sobre o flagelo e o açoitamento do corpo físico de Jesus virtualmente priva o dia mais famoso da história de qualquer significado metafísico.

Em termos técnicos, o filme é belíssimo. Após um mau começo, com música mais adequada a um filme de terror, a trilha sonora assinada por John Debney é enriquecida por um coro e vai ganhando brilho e ímpeto, até chegar ao clímax.

Inspirado pelo pintor Caravaggio, o diretor de fotografia Caleb Deschanel e o figurinista Maurizio Millenotti aderem a tons de terra: cinza, marrom, branco, bege e vinho.

O jogo de sombras e luz, especialmente nas cenas de interiores, criam quadros de grande beleza. Os sets criados por Francesco Frigeri nos estúdios Cinecittà e o uso da cidade de Matera, erguida há 2.000 anos, para as filmagens, recriam com perfeição o ambiente do Oriente Médio da época de Cristo.

O fato de Gibson ter obrigado seus atores a aprender as línguas faladas na época funciona muito bem. Com os personagens judeus falando aramaico e os romanos falando latim, o filme recria o clima bíblico à perfeição. É uma pena que Mel Gibson tenha optado por destacar o realismo físico, às expensas da verdade espiritual.

Reuters





 
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