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| Cena de A Vida É um Milagre |
A Vida é um Milagre, de Emir Kusturica, representa a tentativa do diretor e roteirista sérvio de transpor para o cinema sua visão dos conflitos que dilaceraram a antiga Iugoslávia na década de 1990.
Assista ao trailer do filme!
Mas, apesar da trama se passar durante uma guerra suja e cruel, o filme é repleto de música e cenas cômicas de pastelão. A obra, no final, revela-se uma história de amor.
O longa-metragem não vai agradar a todos. Kusturica carrega demais na direção de várias cenas, na tentativa de manter a tela em estado de tumulto constante.
E, por mais que se possa apreciar as maravilhosas e melódicas canções da No Smoking Orchestra, a banda de rock na qual o próprio Kusturica toca guitarra, o fato é que a música tende a pesar demais, usurpando o espaço dramático da história.
É no meio desse caos todo que vemos um poema de amor ao povo dos Bálcãs e um otimismo perene que acredita que o amor vai conseguir reencontrar a humanidade e salvá-la de suas próprias tendências autodestrutivas.
Kusturica, que também assina o roteiro em parceria com Ranko Bozic, criou uma história em estilo Romeu e Julieta, com toques de Shakespeare, Fellini, Irmãos Marx e Brecht. Ele passa a primeira hora simplesmente apresentando o cenário em que a história acontece.
Estamos na Bósnia em 1992. O engenheiro sérvio Luka (Slavko Stimac), de Belgrado, carregou sua mulher, a cantora de ópera Jadranka (Vesna Trivalic), e seu filho, o talento jogador de futebol Milos (Vuk Kostic), para um pequeno povoado onde pretende construir uma ferrovia que vai ligar a Bósnia à vizinha Croácia, com isso abrindo a região ao turismo.
Personagens rústicos e pitorescos passeiam por esse ambiente bucólico, onde festas embriagadas surgem a todo momento para colorir a situação.
Apesar de sofrer de alergia a pó, Jadranka não perde nenhuma chance para cantar. Quase todos os personagens ignoram a guerra que se aproxima a cada instante, mas que um capitão local do Exército (Stribor Kusturica, filho do diretor) garante às pessoas que não vai acontecer.
Mas então o conflito explode. O filho Milos é convocado pelo Exército e não demora a ser feito refém. Enquanto isso, Jadranka resolve fugir com um músico húngaro. Para ajudar, o Exército leva uma muçulmana, Sabaha (Natasa Solak), a Luka para ser sua refém e assim ser trocada por seu filho.
O problema é que Luka, incapaz de tratar mal a qualquer ser humano, a trata mais como hóspede do que como refém. E eles acabam por se apaixonar, o que vai complicar a questão da troca de reféns.
Mesmo em meio à carnificina da guerra, Kusturica não deixa seu filme ficar deprimente. Ao mesmo tempo em que morteiros fustigam o povoado e explosões sacodem a casa de Luka, a vida, o amor e a música continuam.
O que se percebe é um toque de surrealismo, uma espécie de realismo mágico balcânico que não deixa de cativar o espectador.
Kusturica acaba convencendo, apesar da direção confusa. Há sequências que fogem de seu controle, personagens que não se comportam de maneira normal. Como os moradores do povoado da história, Kusturica se recusa a se deixar dominar pelas tragédias da vida, preferindo ater-se a seus milagres. Ele próprio declara que seu filme é "tristemente otimista".
Como o longa é um virtual concerto da No Smoking Orchestra, a música tem papel central em A Vida é um Milagre, com letras e canções belíssimas.
Todos os outros quesitos técnicos são de primeiro nível, incluindo a fotografia nítida e fluida de Michel Amathieu, os figurinos folclóricos de Zora Popovic e as residências rurais de Milenko Jeremic.
Reuters