| Divulgação |
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| Cena do filme |
Desventuras em Série (Lemony Snicket´s A Series of Unfortunate Events) é um exemplo do que acontece quando se reutiliza à exaustão uma idéia inteligente. O prazer que o espectador sente no primeiro ato dá lugar à impaciência no segundo, sendo que o terceiro é passado olhando o relógio a todo momento.
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O que deveria ser uma exploração fascinante do lado sombrio da fantasia e da atração universal exercida pela maldade gótica acaba degringolando em uma comédia repetitiva que desperdiça um elenco de enorme talento.
Mesmo assim, dada a popularidade da série de livros assinada por Lemony Snicket, pseudônimo literário de Daniel Handler, e as macaquices de Jim Carrey no papel do bombástico vilão da história, tudo indica que o filme vá subir direto para a estratosfera em termos de bilheteria.
A idéia bizarra por trás dos livros é que todos aqueles fatos "desagradáveis ao extremo" que ocorrem nos contos de fada são justamente os elementos que atraem os leitores infantis, em primeiro lugar. As crianças, assim como as crianças que ainda existem dentro de nós, adultos, adoram vilões sinistros e um destino cruel.
Assim, nos livros e agora no filme, Lemony Snicket - no filme, um narrador grave, mas divertido, que fala na voz de Jude Law -constantemente avisa o leitor sobre as calamidades que estão prestes a se abater sobre seus jovens heróis, chegando ao ponto de sugerir que o espectador fuja para o cinema ao lado, onde está passando um filme muito mais feliz.
Aqueles que aguentarem firme vão acompanhar as desventuras em série de três corajosos órfãos (Emily Browning, Liam Aiken e as gêmeas bebês Kara e Shelby Hoffman), que, após a morte trágica de seus pais, enfrentam uma série de parentes excêntricos que se revezam para cuidar deles. O pior de todos é o sinistro Conde Olaf (Jim Carrey), que planeja roubar a herança dos sobrinhos.
O filme é repleto de gags divertidas. Em uma das melhores, a órfã bebê fala em risadinhas e sons que apenas seus dois irmãos compreendem perfeitamente. O público precisa se contentar com as legendas.
A jornada infeliz dos irmãos começa na sombria mansão do conde e continua na casa do tio Monty (Billy Connolly), que mais parece uma estufa, e depois na casa da tia Josephine (Meryl Streep), à beira de um penhasco, culminando em uma apresentação de circo em que o conde e sua trupe de atores desonestos conspiram para que ele se case com sua sobrinha de 14 anos, a fim de roubar sua herança.
Jim Carrey mais uma vez se mostra mestre da comédia física, contorcendo seu corpo em ângulos que desafiam a gravidade e, como camaleão, passando de um disfarce a outro. Mas há algo de canastrice em sua atuação, como se estivesse piscando para o público, deixando entrever que a maldade não passa de representação.
Meryl Streep está divertida no papel da tia instável, que sente um medo irracional de tudo, até mesmo dos objetos e móveis de sua própria casa. Billy Connolly rouba todas as cenas em que aparece, como herpetólogo (especialista em répteis) que anda por aí com uma cobra python em volta do pescoço, enquanto outros répteis percorrem a casa livremente. Ele é um personagem tão fascinante que o espectador lamenta quando ele deixa a história.
Infelizmente, o diretor Brad Silberling e o roteirista Robert Gordon não souberam bem transformar a premissa literária dos livros Lemony Snicket''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''s... em aventura cinematográfica. Os acontecimentos são apenas enfileirados em série, sem atingir um clímax.
O espectador não chega a acreditar realmente no lado sombrio do filme. A vilania do conde Olaf e sua turma é uma maldade de quadrinhos, que não chega a assustar de verdade. Isso atrapalha o equilíbrio entre comédia e tragédia e rouba de "Desventuras em Série" exatamente aquilo no qual o filme se propõe a mergulhar fundo: os horrores presentes na literatura infantil.
Reuters