| Divulgação |
![]() |
| Cena do filme |
O roteirista Charlie Kaufman finalmente chegou ao terceiro ato. Os conceitos dos roteiros de Quero ser John Malkovich, Confissões de uma Mente Perigosa e Adaptação foram todos audaciosos e originais, mas sempre traziam finais um pouco vagos.
Para Kaufman, o diabo estava nos detalhes para encontrar uma saída para o labirinto cerebral no qual havia isolado seus personagens.
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é não apenas o seu roteiro mais acessível e romântico, mas também o mais completo. O terceiro ato funciona como um encanto e reúne maravilhosamente bem todos os temas, personagens e conflitos.
O filme deve atrair os fãs de Jim Carrey e Kate Winslet, e uma grande audiência de jovens e adultos que não querem esperar mais para ver o último roteiro cerebral de Kaufman. Ninguém vai se decepcionar.
A história se passa basicamente dentro da cabeça de Joel Barish (Carrey). Ele sabe que a relação com sua namorada Clementine (Winslet) é moderna, mas leva o maior susto ao descobrir que ela teve suas lembranças sobre ele totalmente apagadas de sua mente. Ao procurar o inventor desse processo, Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson), Joel, num impulso, decide fazer o mesmo.
Depois de tomar uma pílula à noite, Joel cai em sono profundo enquanto dois dos assistentes de Mierzwiak, Stan (Mark Ruffalo) e Patrick (Elijah Wood), entram no seu apartamento em Yonkers e iniciam o processo de apagar de seu cérebro as lembranças de Clementine.
Usando um mapa da presença de Clementine dentro do cérebro de Joel, que o dr. Mierzwiak havia feito no dia anterior, o aparelho de scanner do cérebro busca e destrói as memórias uma a uma.
Arrependido
O filme se divide em duas realidades. Numa delas, no quarto de Joel, Stan e Patrick - que mais tarde terão a companhia da namorada de Stan, Mary (Kirsten Dunst) - pegam as bebidas de Joel e começam a fazer uma festa durante o procedimento.
Patrick acaba confessando que se apaixonou por Clementine ao passear pelas lembranças dela sobre Joel. Usando o que sabe sobre a vida dela e sua atração por Joel, Patrick consegue chegar à cama dela.
Stan fica um pouco desconfortável com isso, mas fica mais perturbado ainda quando seu paciente começa a resistir ao processo e ele precisa recorrer à ajuda do dr. Mierzwiak.
Isso nos leva à segunda realidade - na mente de Joel.
Conforme as lembranças de Clementine desaparecem, ele passa a se dar conta do quanto vai sentir a falta dela e do impacto que a natureza impetuosa da moça teve sobre sua pacata vida.
Ele tenta desesperadamente guardar as lembranças dela em lugares da sua vida que ela nunca visitou. O filme vira uma corrida entre os frenéticos esforços de Joel para manter um pedaço de Clementine e os cientistas loucos que caçam essas lembranças.
Terceiro ato
Michel Gondry, francês que fazia a direção musical de videoclipes até estrear no cinema em Human Nature, com roteiro também de Kaufman, faz uma bela orquestração com a cinematografia de Ellen Kuras, o desenho de produção de Dan Leigh e a montagem de Valdis Oskarsdottir, de forma que as lembranças se fundem e evaporam aparentemente em uma simples tomada.
É um conceito maravilhoso - ver um casal reviver sua vida a dois, voltando no tempo, mas conseguindo comentar o que cada um está pensando e como cada um se enganou a respeito do outro.
O mais excitante de tudo é o terceiro ato, quando os personagens já não se conhecem e devem se descobrir usando o coração, não a mente.
Carrey comprime toda a sua energia cômica para fazer um homem ao mesmo tempo atraído e repelido pelo espírito livre de Winslet, que muda de atitude como muda de cor de cabelo.
Wilkinson confere ao médico uma inteligência calma que quase nos faz esquecer da máquina assustadora que ele inventou. Ruffalo é um pateta descerebrado, enquanto o afeto que Wood dedica a uma ex-paciente tem um lado genuinamente abjeto, o equivalente a um estupro psicológico.
Mesmo com essa trama de ficção científica, Brilho Eterno não se rende à facilidade dos efeitos especiais. Sua ênfase é sempre nos personagens, nos seus corações e mentes.
Reuters