| Divulgação |
![]() |
| Cena do filme |
Como Extermínio - 28 Days Later, filme de seu compatriota Danny Boyle, o novo trabalho do diretor britânico Michael Winterbottom, Código 46, que estréia no sábado, oferece uma visão patológica de um futuro não muito distante. Embora os vírus que ameaçam a sociedade em seu filme não sejam do tipo comedor de carne humana, e, pelo menos à primeira vista, pareçam ser mais benignos, são igualmente insidiosos.
Assista ao trailer
Falta a Código 46 a força visceral de 28 Days Later e também o que pode ser descrito como sua atração escatológica. Esse fato, somado a seu ritmo mais moderado, parece apontar para uma bilheteria menor. Em todo caso, o filme deve atrair os fãs do prolífico Winterbottom e também de seus protagonistas, Tim Robbins e Samantha Morton.
Uma vista aérea inicial de um deserto imenso e estéril, pontilhado por barreiras de alta segurança, seguida de uma tomada de arranha-céus distantes, obscurecidos por uma densa camada de poluição, imediatamente situam o espectador num meio ambiente hostil. O local é Xangai, na China.
O investigador de seguros William (Tim Robbins), de Seattle, chega à cidade para interrogar os funcionários da seguradora Sphinx sobre os "papalles" (uma documento que junta passaporte, visto e apólice de seguro em um só) falsificados que estão sendo fabricados na filial de Xangai da empresa.
Com os poderes que lhe foram conferidos por um "vírus da empatia", ele rapidamente identifica a culpada como sendo Maria (Samantha Morton). Mas, assim que se encontram, ele se apaixona por ela. Em lugar de identificá-la como a culpada, William joga a culpa em outro funcionário.
Maria tem consciência do que William fez. Na noite seguinte os dois saem e acabam na cama dela. Maria engravida. No dia seguinte, o investigador volta para casa, para sua mulher e seu filho, mas não consegue tirar Maria da cabeça. Ele sente que conheceu sua alma gêmea.
Quando uma morte é atribuída aos papalles falsificados, William é mandado de volta a Xangai, mas Maria desapareceu. Ele a encontra num hospital e fica sabendo que ela foi submetida a um aborto e teve sua memória apagada, em função da descoberta de que ela violou o Código 46. Ela nem sequer se lembra de William.
Este descobre que Maria foi clonada a partir da própria mãe dele, já falecida. É evidente, então, que ele e Maria não poderiam ficar juntos. É um dilema que, sem dúvida, afeta muitas pessoas numa era em que a clonagem humana e a engenharia genética são comuns.
Sem poder voltar para os EUA porque seu papalle era válido por apenas 24 horas e já expirou, William decide fugir com Maria, uma aventura fadada a dar errado, numa sociedade que controla as mentes de seus cidadãos.
Winterbottom é hábil quando se trata de mostrar o ambiente físico e emocional em que seus personagens se movimentam. Sua capacidade de situar o público bem no meio de um ambiente frio, estéril e claustrofóbico é uma parte importante da eficácia do filme.
É claro que o fato de uma paisagem tão impessoal e fria ser o último lugar no qual a maioria das pessoas quer estar vai fazer de "Código 46" um filme que não é agradável, embora possa facilmente ser apreciado.
Em parte pelo fato de Winterbottom ser um cineasta mais frio do que, por exemplo, Steven Spielberg, o espectador não se envolve emocionalmente na relação entre Maria e William, como deve ter se envolvido com Minority Report - A Nova Lei, por coincidência também estrelado por Morton.
Com seus cabelos cortados rentes à cabeça, sua ausência de maquiagem e seu olhar cândido e arregalado, ela lembra uma criança que se perdeu e está fascinada por tudo o que vê. A atriz britânica possui uma capacidade bizarra de aparentar estar totalmente vazia de idéias, ao mesmo tempo em que dá a entender que emoções fortes a movem interiormente.
Como em todos os filmes de Winterbottom, a música exerce papel-chave. A trilha sonora composta por David Holmes e Steve Hilton intensifica o senso de austeridade e alienação.
Código 46 pode ser interpretado como um aviso contra o chamado progresso, não apenas no campo da engenharia genética, mas também no âmbito do controle governamental sobre a vida diária dos cidadãos, sem falar nas nossas liberdades civis, que vêm desaparecendo em ritmo acelerado. Essa interpretação torna o filme ainda mais austero e assustador.
Reuters