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| Cena do filme |
O Segredo de Vera Drake, do britânico Mike Leigh, é um drama tão hipnoticamente detalhista quanto é implacavelmente soturno.
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É difícil pensar em outro filme recente representado de maneira tão convincente ou que envolva o público tão completamente em sua autenticidade de época.
O filme foi tremendamente aplaudido quando foi exibido no Festival de Veneza. Em função de seu tema deprimente, é possível que seu público não seja muito grande, mas não faltam recompensas para o espectador que admira a disciplina do trabalho de Leigh, cineasta movido por personagens e ambientes. Uma coisa é certa: prêmios não vão faltar para Vera Drake.
Estamos em 1950 num bairro operário de Londres, na era do pós-guerra, repleta de memórias duras, com uma vida árida que ainda não tinha sido renovada pelos "angry young men" que iriam liderar a revolução cultural dos anos 1960.
A família Drake vive numa situação de dificuldade nunca expressa, enriquecida por sua proximidade e por pequenos atos de bondade e mantida pelo mantra repetido de que, diferentemente de tantas outras pessoas, "temos muito a agradecer".
Vera (Imelda Staunton) é a bondade encarnada: uma mãe, esposa e amiga sempre disponível, que ganha a vida fazendo faxina em casas chiques, mas não deixa de encontrar tempo para visitar vizinhas doentes para lhes fazer uma xícara de chá e um pouco de companhia e que não se esquece de cuidar de sua mãe, que não anda bem de saúde.
Stan (Phil Davis) é um sujeito que passou por momentos sofridos na guerra, mas que não deixa de ser marido e pai sempre confiável. Ele trabalha como mecânico na oficina de seu irmão Frank.
O filho do casal, Sid (Daniel Mays), trabalha numa alfaiataria e faz sucesso com as garotas, enquanto a filha, Ethel (Alex Kelly), é um pouco quieta demais, mas é boa no tricô e trabalha testando lâmpadas. Um dia ela ainda será uma boa esposa para seu vizinho Reg (Eddie Marsan).
A vida da família nessa era anterior à televisão é insossa e calma. À noite eles quase não falam um com o outro, mas, apesar disso, são felizes, já que têm muito a agradecer. Mas Vera tem um segredo. Há 20 anos ela vem ajudando mocinhas que enfrentam problemas. Vera não gosta da palavra aborto. Para ela, o que faz é dar uma mão às garotas.
Vera pratica essa ajuda com uma seringa e água com sabão; ela acredita que o procedimento é seguro, e não cobra nada quando moças pobres, mães que já têm filhos demais ou esposas que pularam a cerca pedem sua ajuda. Suas clientes são todas da classe trabalhadora.
Ela não sabe, por exemplo, que a filha de uma das famílias ricas em cuja casa ela faz faxina também engravidou. Para essa moça, basta pagar 100 guinéus para que um psiquiatra aprove uma pequena cirurgia realizada discretamente numa clínica higiênica e equipada; em seguida, ela volta para a casa dos pais.
Não é essa a sorte das moças que Vera ajuda. Não apenas o aborto clandestino é ilegal, como é perigoso. Quando uma das garotas que ela ajudou apresenta uma reação negativa e adoece seriamente, o hospital onde ela busca tratamento chama a polícia. A vida de Vera, dura mas cheia de calor humano, será invadida.
O diretor e roteirista Mike Leigh conta a história de Vera com olhar atento e ausência total de sentimentalismo. Os detalhes de época são espantosos. Os personagens soam realmente genuínos e são representados por atores cuja atenção para as nuances é tão desenvolvida quanto a de Leigh.
Reuters