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| Cena de Nina |
O escritor e roteirista Marçal Aquino (O Invasor) e o diretor estreante Heitor Dhalia buscaram inspiração nas páginas do clássico Crime e Castigo, do escritor russo Fiodor Dostoiévski (1821-1881), para criar a história de Nina.
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Como os próprios criadores definem, Nina é uma releitura do clássico e não uma adaptação. O diretor conta que ficou impressionado com o livro quando o leu pela primeira vez, dez anos antes de conceber o filme, este ambientado nas ruas imundas e vielas escondidas do centro de São Paulo.
"Sempre fui fascinado pela psicologia dos personagens de Dostoiévski", disse Dhalia. "O que é mais parecido (com o livro) é a atmosfera do filme. O centro de São Paulo está muito deteriorado, acaba sendo cenário de inúmeras criaturas marginais."
O personagem título foi escrito especialmente para a jovem atriz paranaense Guta Stresser, a Bebel da série de TV A Grande Família, que trabalhou ao lado do diretor quando surgiu a idéia de fazer o longa.
"Escolhi a Guta quando a conheci numa peça de teatro. Começamos o filme há quatro anos e então, no meio do processo, ela entrou na Globo. Queria um rosto novo, queria que meu filme tivesse descoberto ela", explicou o diretor, recifense que mora na capital paulista há 11 anos.
No elenco também estão outros rostos conhecidos, em papéis menores, como Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Sabrina Greve e Renata Sorrah.
Ordinários e extraordinários
Dhalia contou que, para descaracterizar a história original de Dostoiévski, de 1866, a primeira coisa a fazer foi mudar o sexo do protagonista do livro, um estudante pobre vivendo num quarto alugado, que acaba se envolvendo em um crime banal.
Nina, também uma jovem, perambula pelo submundo de São Paulo, sem dinheiro, sozinha, faminta e com os olhos sempre borrados de rímel.
Ela desenha compulsivamente e não consegue se manter no emprego de garçonete para pagar o aluguel do quarto onde mora, da velha mesquinha dona Eulália, vivida com assombro magistral pela veterana Myrian Muniz.
Como o personagem do romance, Raskolnikóv, Nina divide as pessoas em dois grupos: os ordinários, que mantém as coisas como elas são, e os extraordinários, que tentam mudar a ordem das coisas. Ambos se enquadram no segundo grupo e, de certa forma, se legitimam a fazer o que for, inclusive matar.
Nunca se diz de onde Nina veio, quem é ela, ou o que aconteceu até então para a garota ser como o é. Seu tempo é o presente - assim como o do filme.
Aparentemente, o único prazer de Eulália é humilhar a garota. A tensão entre as duas cresce a cada dia. Eulália chega a etiquetar todas as suas coisas na geladeira para que a menina não se alimente do que não é seu. Em outro momento, viola sua correspondência e confisca o dinheiro que a mãe lhe envia.
Desenhos de Mutarelli
A cada desejo de Nina de trucidar a velha, a tela do cinema se enche de animações violentas em preto e branco, lembrando os mangás japoneses. As ilustrações, que também aparecem no quarto de Nina, são do artista paulista Lourenço Mutarelli, ajudando a corroborar com a confusão mental da garota.
"O legal do Mutarelli é que ele tem desenhos muito inspirados em Dostoiévski, além de ser uma pessoa muito parecida com a própria Nina", comentou o diretor.
O próximo trabalho de Dhalia, aliás, será a adaptação do livro de Mutarelli O Cheiro do Ralo, que deve começar a ser rodado em janeiro, tendo como protagonista Selton Mello.
A fotografia do veterano José Roberto Eliezer (A Dona da História) também ajuda no clima sombrio. O destaque natural aos tons mais escuros envolve em sombras a trajetória da jovem Nina.
Com orçamento total de cerca de 2 milhões de reais, Nina já participou do Festival de Moscou, onde recebeu o prêmio da crítica. O filme foi também destaque no Festival de Cinema do Rio e da 28ª Mostra BR de Cinema.
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Reuters