O diretor sul-coreano Kim Ki-duk, um dos favoritos do público do cinema de arte, destaca aspectos misteriosos da vida urbana em seu trabalho mais recente, Casa Vazia.
Em Samaritan Girl, ele encarou temas como a redenção cristã, falando da amoralidade sexual de colegiais. Em Casa Vazia, os alvos de sua crítica são os adultos materialistas e possessivos. O resultado é um pouco menos interessante e atraente do que Samaritan Girls, mesmo como filme de arte.
Mas a premissa básica do filme é no mínimo original. Um rapaz sem moradia fixa passa seus dias entrando nas casas de pessoas que estão viajando ou distantes.
Em lugar de roubar, porém, ele apenas vive a vida dos moradores das casas por alguns dias - come um pouco da comida deles, posa para fotos ao lado de seus objetos de estimação, etc. Em troca, ele lava a roupa, limpa a casa e faz pequenos consertos domésticos.
Um dia ele entra ilegalmente na residência de um empresário rico, mas é flagrado pela mulher maltratada do empresário, que está escondida num canto.
Quando se dá conta de que o jovem invasor desconhecido é gentil e nada agressivo, a mulher não apenas não o expulsa como acaba partindo com ele, abandonando seu marido violento e carreirista.
De início não ocorre romance entre eles: são apenas duas pessoas que fazem companhia uma para a outra enquanto fogem da realidade. Desse momento em diante, o casal improvável percorre a cidade vivendo como dois fantasmas nas casas de outras pessoas, sem que os donos sequer se dêem conta disso.
Mas o marido da mulher, sedento de vingança, acaba por encontrá-los, e a vida inofensiva que eles levam é questionada e contestada pelas autoridades quando eles são capturados.
A idéia básica do filme é fascinante, e, além disso, ela é mostrada de maneira poderosa, praticamente sem diálogos ¿ o ator principal, Jae Hee, não fala nada durante o filme inteiro.
O diretor faz cinema usando apenas imagens marcantes e os rostos de seus atores, mesmo que estes às vezes quase não demonstrem expressão alguma.
A primeira metade do filme é um prazer de se assistir, enquanto os dois estranhos vivem uma vida de sombras, em clima zen, invisíveis no meio da cidade grande e barulhenta.
Infelizmente, quando os dois são capturados, a narrativa perde um pouco do pique. Atirado numa cela isolada, com um carcereiro que não hesita em aplicar seu cassetete, o rapaz sai numa tangente metafísica.
O filme parte para a dialética, e, embora a conclusão seja clara e um pouco mais otimista do que a de Samaritan Girl, ao todo ela não satisfaz, exceto como argumento filosófico.


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