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| Cena do filme |
Encorajado pela reação positiva dada a Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood leva adiante sua exploração do lado trágico da existência humana em Menina de Ouro, filme que penetra numa área obscura da alma onde um homem pode se esconder de seu Deus, ao mesmo tempo em que pede sua misericórdia.
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À primeira vista o filme é uma simples história de boxe sobre uma mulher revoltada e o grisalho treinador de boxe, católico de origem irlandesa, que faz dela sua pupila. Sob a direção cuidadosamente enxuta de Eastwood, cuja obra vem se transformando no equivalente cinematográfico à prosa enxuta e precisa de Ernest Hemingway, a história emerge como uma raridade: uma tragédia que nos enaltece e inspira.
Menina de Ouro talvez não agrade a tantos espectadores quanto os que geralmente aplaudem os filmes de Eastwood. Falta ao filme a energia propulsiva de Sobre Meninos e Lobos, que, afinal de contas, era uma história policial. Há poucos momentos em que a história sai do ringue ou da academia de boxe.
O roteiro assinado por Paul Haggis é baseado num conto do livro Rope Burns: Stories From the Corner, uma coletânea de contos baseados nas experiências do lutador e empresário de boxe Jerry Boyd, que os escreveu aos 70 anos, sob o pseudônimo de F.X. Toole. O espectador terá que se acostumar a um estilo de escrita que favorece os estereótipos e as tramas já batidas.
É a força da personalidade que Eastwood, Hilary Swank e Morgan Freeman conferem a esses ratos de academia de boxe que os transforma em arquétipos convincentes de uma história de heroísmo quase místico.
Frankie Dunn (Eastwood) é um homem emocionalmente fechado e amargo. Distanciado de sua filha - embora o filme não chegue a mostrar as razões disso -, ele se fecha em sua academia no centro de Los Angeles, cercado por lutadores e por Scap (Morgan Freeman), o ex-boxeador que dirige o estabelecimento.
Frankie também mantém boas relações com Deus. Ele vai à missa quase todos os dias, mas o faz sobretudo para discutir com o exasperado padre (Brian O'Byrne).
Quando Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), uma garota pobre e emocionalmente marcada do interior, pede a ele que a treine para virar pugilista, sua resposta é curta e grossa: ela é velha demais (tem 31 anos) e ele não treina "garotinhas".
Mas Maggie passa um ano malhando na academia, de vez em quando recebendo dicas de Scrap, até cansar Frankie ao ponto em que ele, a contragosto, a aceita como aluna. Lutadora e treinador se preparam para uma luta valendo um campeonato.
Nesse ponto a história deriva repentinamente para a tragédia, obrigando os dois a enfrentar o verdadeiro sentido do amor e as maneiras estranhas pelas quais o destino pode redimir as pessoas.
O filme tem poucos personagens. Jay Baruchel faz um deficiente mental que nutre a ilusão de virar boxeador. A família pobre de Maggie ameaça inundar o filme em clichês. Com essas exceções, Menina de Ouro é um drama baseado em apenas três personagens.
Como não poderia deixar de acontecer, Maggie vira a filha que tanta falta faz a Frankie, mas a relação deles é combativa, e eles nunca conseguem ficar na mesma sintonia até o final.
Do mesmo modo, Frankie e Scrap brigam como se fossem marido e mulher de muitos anos, mas, por baixo da superfície, uma simbiose poderosa os une.
Na última luta da vida de Scrap, este perdeu um olho, e esse fato deixou Frankie cauteloso ao extremo. Ele recomenda a seus lutadores que se protejam, mas o que ele realmente quer é proteger a si mesmo. Por isso ele nunca os encaminha para lutas que valham títulos, e isso os leva a procurar empresários que o façam. Quando ele finalmente concorda em fazê-lo, seus piores medos se realizam.
O filme é narrado por Scrap, num relato no qual a poesia e as reflexões às vezes soam um pouco estudados demais. Como diretor, Clint Eastwood mantém as cenas individuais simples e ágeis, como as lutas de Maggie. Assim que consegue o impacto emocional que procura, ele corta e passa para outra cena.
A música composta por Eastwood (e orquestrada por Lennie Niehaus) é reduzida ao essencial, em alguns momentos a um violão solitário, refletindo a melancolia dos personagens. A fotografia de Tom Stern é simples em direta, em cores contidas, e há um belo jogo de luz e sombras.
Reuters