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| Cena do filme |
Aos 70 anos, Woody Allen criou uma das tramas mais surpreendentes de sua carreira de cineasta com Ponto Final ¿ Match Point, que estréia nesta sexta-feira.
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É verdade que o diretor norte-americano já fez dramas sérios, mas nunca antes trabalhou em um país estrangeiro nem buscou entendimento filosófico em eventos trágicos. É difícil saber como seus fãs irão reagir nesta nova empreitada.
A trama se passa na Inglaterra contemporânea, mas a impressão que se tem é que seja a Inglaterra de algumas décadas atrás. Os cenários em interiores refinados como a Tate Modern e outras galerias certamente ajudam a aparentar modernidade.
Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) é um ex-tenista profissional que deixa o circuito quando percebe que não é bom o bastante.
Ele consegue um emprego de professor de tênis para sócios ricos de um clube londrino esnobe. Ali ele conhece Tom Hewett (Matthew Goode), e eles descobrem um interesse mútuo em ópera.
Um convite de seu novo amigo para que ele conheça o camarote da família faz com que Chris conheça a irmã de Tom, Chloe (Emily Mortimer), uma mulher doce e agradável, que logo desenvolve um interesse amoroso pelo belo instrutor de tênis.
Chris corresponde ao interesse dela, mais por amizade do que por amor. A paixão surge quando ele conhece a noiva de Tom, a provocante e temperamental Nola Rice (Scarlett Johansson). Ela bebe um bocado ¿ a maioria dos personagens mostra certo apreço pelo álcool ¿, então, quando Chris pega Nola no momento e temperamento certos, eles têm um caso.
No fim, Tom dá o fora em Nola. Chris se casa com Chloe e tem um emprego na empresa do seu sogro. Chloe quer engravidar a todo custo, mas não consegue. O destino faz Chris voltar a se encontrar com Nola um ano depois. O romance entre eles ressurge e logo ¿ e de uma forma previsível ¿ a mulher errada engravida.
INTERESSE FILOSÓFICO
Cresce a pressão sobre Chris para que ele faça "a coisa certa". Mas isso iria exigir que ele abandonasse um estilo de vida luxuoso, ao qual ele se acostumou. Ele secretamente pega emprestado uma das armas de seu sogro. Como o oftalmologista adúltero de Crimes e Pecados, de Allen, Chris enfrenta um dilema moral: a destruição de sua vida ou o assassinato.
O principal interesse filosófico de Allen aqui é a noção de que a sorte ou o destino desempenham um papel maior em nossas vidas do que pensamos ¿ e que a própria justiça é uma mera questão de sorte. Certamente, a injustiça ocorre com maior frequência.
Allen não retrata os personagens com muita profundidade. Chris, seu protagonista, é o mais bem detalhado, é claro, mas nós nunca temos certeza do que o motiva. Ele mais ou menos aceita seu casamento e emprego; não sentimos nenhuma ambição ou determinação que o levariam a contemplar um ato tão radical como o assassinato.
Já Nola possui uma aura sexual forte, mas ela nunca é vista tirando vantagem disso. Seu sex-appeal parece que só lhe rende pesar.
"Ponto Final" parece uma história feita mais para provar um ponto-de-vista filosófico do que para examinar um meio social ou um tipo particular de personagem.
Outro fator poderia explicar o caráter superficial desses personagens: em seus filmes, Allen explora tanto os personagens através da comédia, que quando ele lhes nega frases espirituosas ou a comédia física, seus personagens perdem a dimensão. Eles parecem sem alma, reagindo mais aos ditames da história do que a impulsos e desejos interiores.
Reuters