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A maior surpresa em Oliver Twist, de Roman Polanski, é que não há surpresa. Ao recontar a história mais amada de Charles Dickens - com a possível exceção de Um Conto de Natal -, o diretor relata a história familiar de um modo extremamente familiar.
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Dada a infância difícil de Polanski no interior da Polônia, sobrevivendo à ocupação nazista, podia-se esperar que ele usasse as aventuras do jovem órfão na Inglaterra corrupta do século 19 como um tipo de autobiografia espiritual daqueles anos.
Mas não. Esta última adaptação de Oliver Twist - há mais de 20 versões do filme para o cinema e a TV desde 1906 - segue o mesmo caminho já percorrido.
Não que não seja uma produção respeitável, que conta com um bom elenco, liderado por Ben Kingsley, que consegue transformar o vilão Fagin numa figura sinistra e trágica. Falta, no entanto, o brilho que poderia ser trazido por um ponto de vista original sobre a história repetida incontáveis vezes.
Como poucas vezes em sua carreira, Polanski fez um filme para a família e Oliver Twist deverá ser promovido como tal. Com certeza, funcionará melhor entre os jovens espectadores que ainda não conhecem a história. Com o nome de Polanski como atrativo, o filme deverá ter bom faturamento de bilheteria em todo o mundo.
Quando Dickens escreveu Oliver Twist, estava revoltado com a opressão social que via por todos os lados. Mas nós já não podemos mais reagir a essas revelações da mesma maneira que seus primeiros leitores.
Portanto, as cenas com o horrível Mr. Bumble (Jeremy Swift) no reformatório, onde Oliver entra aos 9 anos, ou a justiça hipócrita determinada por um juiz bobalhão funcionam agora como comédia. E Polanski encoraja seus atores a exagerar. Em poucas palavras, os retratos de injustiça social perderam a força.
Barney Clark faz um trabalho admirável interpretando o jovem ingênuo, mas corajoso, encontrando mais aventuras do que poderia desejar nas ruas perigosas de Londres. O outro ator mirim do filme, Harry Eden, se diverte como Artful Dodger.
A história, claro, tem dois vilões. O Fagin de Kingsley não é o mesmo homem interpretado por Ron Moody no musical Oliver!, premiado pelo Oscar. Kingsley evita a comédia, mas não a astúcia, para permitir que vejamos um homem esperto dedicado ao crime e à exploração de mulheres e crianças.
E o Bill Sykes de Jamie Foreman é um homem violento de temperamento vil. Ele é, aliás, o personagem mais contemporâneo do filme.
Na verdade, parte do melodrama de Dickens é tosca e não convence. A ascensão surpreendente de Oliver, que se deve a pouco mais do que o fato de ser bonitinho, parece menos provável do que nunca, uma visão romântica imposta à história para ofuscar as realidades mais sombrias da época.
Os sets de filmagem de Allan Starski, construídos nos estúdios Barrandov, da República Tcheca, também não são muito convincentes. Eles se parecem com sets, algumas vezes com uma pintura da cúpula da St.Paul ao longe. Todas as outras contribuições técnicas são razoáveis.
Reuters