| Divulgação |
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| Cena do filme |
O documentarista francês Georges Gachot era especializado há 15 anos em filmes sobre música clássica. A única artista popular capaz de desviá-lo desse rumo foi a cantora brasileira Maria Bethânia, vista por ele em 1998 no Festival de Montreux e que se tornou a protagonista do documentário Maria Bethânia, Música é Perfume.
Produzido pelo canal francês ARTE e já exibido em circuito cinematográfico na Europa este ano, o filme estréia em São Paulo e Rio de Janeiro na sexta-feira.
Gachot gastou cinco anos, de 1998 a 2003, num processo de pesquisa não só sobre Bethânia, mas sobre a música brasileira. Finalmente, em 2003, o cineasta francês - que é radicado na Suíça - criou coragem e enviou a Bethânia um de seus documentários musicais clássicos, Martha Argerich, Conversas Noturnas, sobre a pianista argentina amiga do brasileiro Nelson Freire.
Por coincidência, tanto esse filme como Maria Bethânia, Música é Perfume foram exibidos na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2005. O trabalho sobre Martha Argerich convenceu Bethânia a aceitar fazer o filme, que leva o nome de uma definição que a própria cantora deu à música, identificando-a com o perfume.
Em entrevista concedida durante a Mostra paulistana, o cineasta contou que sofreu um "choque com a presença de Bethânia em cena, sua concentração incrível de emoção, seus pés nus". E o melhor é que Gachot soube vencer a lendária aversão da cantora baiana às câmeras, conseguindo que ela se mostrasse muito à vontade, contando coisas sobre sua vida e carreira.
Ela recorda histórias familiares, muitas delas com o irmão mais velho, Caetano - que escolheu seu nome a partir de uma canção de Nelson Gonçalves, mesmo tendo apenas quatro anos quando a irmã nasceu. Uma das mais engraçadas lembra que os dois costumavam brincar de faquir no alto de uma árvore - o que significava ficar lá no alto sem fazer nada, por horas a fio. O que, para Bethânia, foram seus "primeiros exercícios de concentração".
O documentário entrevista, além de Caetano, também Chico Buarque de Hollanda, de quem Bethânia vem sendo uma das maiores intérpretes - como da antológica Olhos nos Olhos.
A cantora lembra alguns de seus compositores favoritos que já morreram, como Vinicius de Moraes e Gonzaguinha - que chegava a aceitar mudanças de palavras em algumas canções, por sugestão de Bethânia. "Há palavras que eu não digo, daí pedia para mudar", conta ela, sem dizer quais são essas palavras proibidas em seu vocabulário.
Ao mesmo tempo que revela estes pequenos segredos de Bethânia, o filme mostra-a dividindo o palco com outras cantoras, como Nana Caymmi e Miúcha, tornando o documentário um pequeno extrato da música brasileira.
Tal como aconteceu no documentário Vinicius, a melhor participação vem de Chico Buarque de Holanda, quando define que "a utopia de um país possível está preservada nesse manancial de beleza do cancioneiro do Brasil".
Reuters