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| Cena do filme |
Em A Passagem, que estréia nesta sexta-feira, o diretor Marc Forster joga com imagens de pesadelo, confusão de identidades e um psiquiatra herói que mergulha de cabeça na psicose. É um melodrama elaborado, que se passa no mundo sombrio entre a realidade e o sonho.
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É como se Forster e o roteirista David Benioff estivessem imitando M. Night Shyamalan (de O Sexto Sentido e Corpo Fechado), enquanto tinham em mente o clássico do expressionismo O Gabinete do Dr. Caligari.
A Passagem permaneceu na prateleira por mais de um ano, e o motivo disso é claro. Apesar da presença de um elenco talentoso, que inclui Ewan McGregor, Naomi Watts e Ryan Gosling, não há muita audiência para esse tipo de produção. O filme exige que o espectador reúna imagens e informações fragmentadas como em um jogo de quebra-cabeça, mas não chega a dar a esse espectador um bom motivo para fazer isso.
A música, o trabalho de edição e a angústia furiosa cada vez maior dos personagens tornam o filme irascível, e muita gente pode preferir sair da sala de cinema conforme as peças desse jogo ficam cada vez mais absurdas. Portanto, não espere que A Passagem fique muito tempo em cartaz.
A pergunta "O que é real?" foi colocada em filmes e peças quando o existencialismo estava em voga. Então, a surpresa aqui é que alguém faça essa pergunta de novo - e de maneira bem menos atraente que a dos existencialistas.
McGregor interpreta o médico Sam Foster, um psiquiatra que recebe a missão de cuidar de Henry (Ryan Gosling), um jovem estudante de arte ensandecido, depois que o médico deste adoece misteriosamente. A natureza experimental dessa relação sofre uma reviravolta quando o paciente anuncia o plano de se matar à meia-noite de seu 21o aniversário, isto é, daí a três dias.
Uma coincidência é que a atual namorada e ex-paciente de Sam, Lila (Watts), também é uma artista que tentou cometer suicídio. Então, outras coisas estranhas começam a acontecer. Do nada - literalmente - o jovem Henry prevê uma chuva de pedra. Lila chama Sam pelo nome de Henry. Henry insiste que o colega cego e idoso de Sam, Dr. Patterson (Bob Hoskins), é seu pai morto. Incidentes menores começam a se repetir como no cômico pesadelo de Bill Murray em Feitiço do Tempo.
Na verdade, muitas imagens, objetos e pessoas reaparecem enquanto Sam vagueia por uma Nova York que é menos uma paisagem do que um estado da mente. A equipe mostra um trabalho meticuloso ao transformar Nova York em um cenário de sonhos ansiosos e ameaçadores, mas até mesmo isso fica cansativo.
Alguns momentos beiram o terror, como quando a cidade pára completamente e o personagem de Gosling olha para o rosto das pessoas enquanto o sangue começa a pingar de seu crânio - a imagem significaria que ele pode em breve dar um tiro na cabeça?
Com toda a confusão de identidades entre os dois homens e a insistência de ambos em verem e falarem com pessoas mortas, uma questão óbvia surge: Quem é o verdadeiro louco aqui? É o paciente... ou o médico? Mesmo essa questão parece uma tentativa de desviar o assunto, pois a verdadeira pergunta deveria ser: para onde vai essa história... e de quem é essa história?
Os três protagonistas - junto com atores em outros papéis menores como Hoskins, Janeane Garofalo e D.B. Wong - emprestam integridade suficiente a esses papéis incertos para manter a platéia envolvida em um filme que é mais cerebral que emocional. Mas a coisa toda se recusa a permanecer firme. Os elementos surreais são freqüentemente óbvios e batidos. A seriedade forçada pede um pouco de destreza ou um toque de brincadeira. Pede, em suma, um Luis Buñuel, mas ele era único.
Reuters