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| Cena do filme |
Com Munique Steven Spielberg invade de maneira bem-sucedida o território de Costa-Gavras. O filme é uma investigação tensa e provocadora sobre as ramificações políticas, morais e históricas do terrorismo e o esforço para combater esse flagelo.
Embora não falte ação nem intriga em Munique, Spielberg deliberadamente silencia o tom desses eventos para discursar sobre a ética do contraterrorismo, neste caso, os assassinatos.
O problema enfrentado pela Universal Pictures, que co-produziu o filme com a DreamWorks e vai distribui-lo, é duplo. Nos EUA, a empresa deve vender Munique, filme sem elenco estelar, como uma produção de Spielberg, mesmo sendo o filme menos spielberguiano já feito pelo diretor. No mercado externo, deve vencer as suspeitas de preconceito contra palestinos levantadas por um filme polêmico sobre terrorismo, feito por um diretor judeu-americano. Não se trata disso, mas estamos falando de aparências aqui.
A trama aborda os acontecimentos posteriores ao sequestro e assassinato de 11 atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A história, escrita por Tony Kushner e Eric Roth (baseada no livro Vengeance de George Jonas), segue a ação de uma equipe secreta de cinco homens, baseadas na Europa, para rastrear e matar 11 palestinos suspeitos de planejar o ataque na cidade alemã. O evento de Munique é mostrado em flashbacks durante todo o filme, como o pesadelo recorrente que instiga e assombra o líder da unidade israelense.
Eric Bana faz o papel de Avner Kauffman, agente do Mossad e ex-guarda-costas da premiê israelense Golda Meir. Ele é escolhido pessoalmente por Meir (Lynn Cohen em um ótimo trabalho) para liderar os assassinos. O segredo em torno da missão é tanto que o agente é obrigado a pedir demissão do emprego, abandonar a esposa grávida (Ayelet Zurer) e agir sem o conhecimento e a supervisão de seus chefes, principalmente Ephraim (Geoffrey Rush).
A equipe de assassinos é heterogênea. O sul-africano Steve (Daniel Craig) talvez esteja ansioso demais para matar. O meticuloso belga Robert (Mathieu Kassovitz) é o responsável por armar as bombas. O judeu alemão Hans (Hanns Zischler), cuja fachada é um antiquário, mostra ser um excelente falsificador de documentos. Já Carl (Ciarán Hinds) tem como missão assegurar que os alvos estejam desimpedidos e não haja danos colaterais.
No início, a história se passa no mundo da intriga internacional e da vingança melodramática. Gradualmente, porém, um sentimento de desconforto toma as cenas mostrando a equipe liquidando suas presas. As vítimas não são o que se poderia esperar: um escritor estudioso em Roma, que traduz literatura árabe para o italiano, um professor bem-conceituado em Paris, vivendo uma confortável vida burguesa com sua família. Alguns assassinos percebem que não há uma única prova ligando esses alvos ao ataque em Munique.
Certamente, hoje em dia ninguém precisa ser lembrado de como as garantias de um governo e as informações de agências de inteligência podem se mostrar erradas e desonestas. Na verdade, um novo livro sobre a vingativa resposta de Israel ao episódio de Munique alega que os israelenses mataram muitos homens errados.
"Todo esse sangue vai voltar para nós", reclama um dos assassinos. A consequência involuntária é que esses homens passam a ser assombrados por suas próprias ações sanguinolentas. Pior, pode-se argumentar que com esses atos ilegais Israel perde seu sentido de retidão. Como alguém poderia, agora, diferenciá-los de seus inimigos?
Há ainda outro preço. Para cada morte, o Setembro Negro, grupo terrorista por trás do ataque em Munique, revida com atos ainda mais terríveis, pelo menos em termos de número de vítimas. Por fim, os caçadores viram a caça, quando os membros da equipe de Avner começam a ser mortos um a um.
O contexto político aparece em uma sequência em que Avner discute a questão palestina com um terrorista palestino, que desconhece a verdadeira identidade de seu interlocutor. Nessa discussão calma, torna-se evidente que duas tribos reclamam a mesma terra com igual paixão, e cada uma tem queixas genuínas contra a outra. Os dois lados estão dispostos a responder aos atos de violência com mais atos de violência, perpetuando um ciclo mortal que nunca cessará sem a intercessão de pacifistas, um grupo que era, e é, pequeno no Oriente Médio.
Spielberg mostra os assassinatos maximizando o suspense, sem recorrer a truques elaborados de cinema. Mortes e tiroteios são bagunçados, até mesmo malfeitos. Os personagens são comuns mortais com pouca ênfase no heroísmo. A principal preocupação de Avner é sua mulher e filha, a quem ele transferiu de Israel para o Brooklyn a fim de poder visitá-las ocasionalmente.
O estilo retrô do diretor de fotografia Janusz Kaminski move o filme para a escuridão, com cores mais perturbadoras conforme os assassinatos continuam. A edição de Michael Kahn consegue construir o suspense nas sequências individuais à maneira de Hitchcock. O filme termina com dois homens seguindo direções contrárias no Brooklyn. As torres gêmeas do World Trade Center dominam a paisagem atrás deles.
Reuters