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| Cena do filme |
Mentiras Sinceras, que estréia nesta sexta-feira, tem alguns personagens importantes, locações amenas e uma narração precisa sem um único diálogo desperdiçado.
Em sua estréia atrás das câmeras, o ator e roteirista Julian Fellowes (de Assassinato em Gosford Park) preferiu se concentrar no que sabe fazer melhor, isto é, nos atores e no roteiro.
O foco é uniforme e intenso, o tema é claramente delineado e os subtextos são bem estudados. A história apresenta um dilema moral envolvendo traição, sexo ilícito, hipocrisia e um crime, e mesmo assim o filme não se perde. É tudo muito britânico.
O tema e as atuações ¿ com apenas uma exceção ¿ são fortes o bastante para atrair o público do cinema de arte.
Em Mentiras Sinceras, Fellowes pega um obscuro romance de Nigel Balchin escrito em 1951, A Way Through the Wood, moderniza a história de um triângulo amoroso, e adiciona a ela uma investigação criminal. Esse último ingrediente com certeza acrescenta uma camada fascinante de complexidade e uma ambiguidade moral a uma situação que já é bastante tensa.
James e Anne Manning vivem uma vida aparentemente de sonhos como um casal da classe média alta, embora a decisão de escolher Tom Wilkinson e Emily Watson para interpretar os personagens forneça uma considerável disparidade entre os dois.
James é um advogado altamente respeitado e bem-sucedido, enquanto Anne é sua companheira atenciosa e aparentemente feliz.
Os problemas começam quando James suspeita que um vizinho, Bill Bule (Rupert Everett), o filho indolente de um nobre, é culpado por um atropelamento seguido de fuga que matou o marido da faxineira dos Manning (Linda Bassett). Sendo britânico, James leva o colega para almoçar e, educadamente, informa-o de suas suspeitas.
Bill em princípio nega seu envolvimento, mas acaba por admitir o crime. O que ele não diz, mas que a mulher de James conta naquela mesma noite, é que há mais sobre o incidente. Anne não apenas estava envolvida no atropelamento, como ela também estava tendo um caso com Bill.
O que Fellowes consegue mostrar com essa reviravolta na trama é que o certinho James está preso em uma rede de mentiras e decepções com o homem que tem um caso com sua mulher. Na hora, James está ao mesmo lado e no lado oposto ao de seu rival. Essa reviravolta diabólica dá a Mentiras Sinceras não apenas um gosto dramático, mas torna o filme um intrigante estudo sobre a moralidade.
Como o casal em crise, Wilkinson e Watson são perfeitos. Cada um deles captura as nuances sutis sobre as pessoas com idéias totalmente diferentes sobre a bênção do matrimônio. James enxerga no relacionamento uma vida certa e ordeira, Anne vê exigências impossíveis e padrões aos quais ela não consegue cumprir. O que a torna altamente suscetível à sexualidade do bad boy de Bill e ao desdém completo pelas aparências que apenas a classe alta ¿ ou a classe muito baixa ¿ pode praticar.
O maior problema do filme é a interpretação preguiçosa de Everett. Jogado em uma cadeira ou sofá com um sorrisinho inevitável nos lábios, Everett projeta mais irritabilidade do que sexualidade. Mesmo quando ele aparentemente está bastante doente, o ator não usa a linguagem corporal nem maquiagem para mostrar seu infortúnio.
O cinegrafista Tony Pierce-Roberts, que trabalhou em vários filmes da dupla Merchant-Ivory, mostra imagens adoráveis de Londres, Paris, Gales e da bucólica Buckinghamshire.
Reuters