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A Conquista da Honra, de Clint Eastwood, faz de forma brilhante uma coisa incrivelmente corajosa. É um filme sobre um conceito. E não um conceito qualquer, mas a idéia batida e muitas vezes equivocada de "heroísmo".
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O filme cumpre a missão em meio à batalha de Iwo Jima, uma ilha no Japão, em 1945, quando o fotógrafo da Associated Press Joe Rosenthal tirou a famosa foto de seis soldados americanos erguendo uma bandeira do País sobre o monte Suribachi.
O longa de Eastwood desconstrói aquele momento, transformando-o num quebra-cabeças de flashbacks e de incursões no futuro, para explicar como aquela foto acabou se transformando em instrumento para a campanha de venda de bônus de guerra pelo governo dos Estados Unidos.
O diretor examina sem dó a campanha dos bônus e aquilo que hoje reconhecemos como o nascimento do culto às celebridades, pois os três sobreviventes da imagem estiveram entre os homens mais famosos dos EUA.
Mas o projeto é cheio de ação e sangue, como outros filmes marcantes - O Resgate do Soldado Ryan, Falcão Negro em Perigo e Fomos Heróis. E Eastwood não desmerece o sacrifício e as conquistas dos homens que lutaram e morreram por Iwo Jima.
O filme é baseado num livro de James Bradley sobre seu pai, o médico da Marinha John Bradley, um dos que levantaram a bandeira, mas que nunca falava sobre a guerra com a família. O roteiro de William Broyles Jr. e Paul Haggis tem uma estrutura complexa que pode ser difícil para o público captar.
Um soldado corre sozinho num cenário árido que mais parece a superfície lunar e então acorda suando frio na cama, com sua mulher reconfortando-o, muitos anos depois.
Três soldados que escalam uma montanha em meio a explosões chegam ao cume e deparam com um mar de gente num estádio de futebol, aplaudindo entusiasmados a representação da experiência real deles de algumas semanas antes. Enquanto isso, numa época mais recente - depois percebemos que se trata do filho, James Bradley (Tom McCarthy) - entrevista pessoas que conheceram o pai.
É dessa maneira que o filme vai para a frente e para trás, analisando a questão do heroísmo e como o gesto de erguer a bandeira transformou-se num símbolo ao qual os norte-americanos se agarraram.
No início é difícil distinguir quem é quem entre os seis protagonistas da foto, mas Eastwood e os roteiristas provavelmente fizeram isso de propósito, para retratar os homens como soldados comuns que apenas faziam seu trabalho.
O destino escolhe quem serão os seis de forma totalmente aleatória. Três deles morrem logo depois da foto ser tirada, e os três remanescentes são chamados de volta ao continente pelo governo dos EUA: Doc Bradley (Ryan Phillippe), Rene Gagnon (Jesse Bradford) e Ira Hayes (Adam Beach).
Durante a campanha dos bônus, o "mentor" do trio (John Benjamin Hickey) tem ao mesmo tempo que superar a resistência deles em fazer o papel de heróis e que manter Ira sóbrio.
A fotografia é em cores lavadas, como filmes antigos e apagados. Há momentos surpreendentes, como quando os soldados norte-americanos percebem que os japoneses sobreviventes estão se suicidando com suas granadas.
A trilha sonora, de autoria do próprio Eastwood, dá um certo tom de melancolia ao filme, e a reconstituição de época é crucial para concretizar a visão do diretor de um mundo que precisa de "heroísmo" para ajudá-lo a entender e processar a crueldade e o sacrifício incompreensíveis da guerra.
A batalha de Iwo Jima também é tema de um filme-irmão, feito pelo próprio Clint Eastwood, Cartas de Iwo Jima, que mostra o lado japonês da batalha, com atores japoneses e no idioma japonês.
Cartas de Iwo Jima ganhou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e obteve quatro indicações para o Oscar (melhor diretor, melhor filme, melhor roteiro original e melhor som).
A Conquista da Honra teve duas indicações ao Oscar, mas em categorias técnicas (melhor som e melhor edição de som).
Por causa dos filmes-irmãos, Clint Eastwood obteve o feito de ser indicado duas vezes ao Globo de Ouro de melhor diretor.
Reuters