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| Cena de The Queen |
Dez anos após a morte de Lady Di em um acidente de carro em Paris, o filme britânico A Rainha, de Stephen Frears, relembra a verdadeira crise política aberta na Inglaterra devido à inabilidade com que, a princípio, a família real lidou com a incrível popularidade da princesa morta.
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A atriz Helen Mirren, que interpreta a rainha Elizabeth II, cumpre seu papel com maestria. Vencedora do Globo de Ouro neste ano por este papel, ela também concorre ao Oscar de melhor atriz no próximo dia 25 de fevereiro.
Esta é uma das seis indicações de A Rainha, que disputa também a estatueta em outras categorias muito cobiçadas: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original (Peter Morgan), melhor figurino (Consolata Boyle) e melhor música (Alexandre Desplat).
Um dos aspectos mais interessantes da história é retratar personagens reais e vivos atualmente, caso da rainha e também do primeiro-ministro Tony Blair (interpretado por Michael Sheen, que viveu o mesmo personagem num filme para a TV inglesa, The Deal, de 2003, também dirigido por Frears e escrito por Morgan, parceiros em A Rainha). Sheen, aliás, parece-se inclusive fisicamente com Blair, assim como a atriz que interpreta sua mulher Cherie, Helen McCrory.
O filme mostra membros da família real fazendo comentários cínicos sobre a morte da princesa. A princesa Margaret, por exemplo, diz à irmã e rainha, quando tem de interromper suas férias na Toscana por causa do funeral, que "até depois de morta Diana cria problemas".
Em todo caso, é fato comprovado que a família real resistiu muito a fazer qualquer comentário ou mesmo a organizar um funeral público para aquela que, mesmo divorciada do príncipe Charles (Alex Jennings), é mãe de dois príncipes herdeiros.
Quando fica sabendo que Diana morreu, a rainha não faz qualquer declaração, não se move de sua residência de férias nem manda hastear nenhuma bandeira no Palácio de Buckingham ¿ diante de cujos portões toneladas de ramalhetes de flores se acumulavam a cada dia, demonstrando a dor que a população inglesa sentia com a morte da princesa.
A rápida compreensão do sentimento do povo mostra-se a primeira grande oportunidade do primeiro-ministro Tony Blair, novo no cargo, de marcar pontos para sua própria popularidade. Bem-orientado por seu assessor de imprensa, que inventa a expressão "princesa do povo" para um dos discursos de Blair, o primeiro-ministro sai fortalecido do episódio.
Sentindo-se forte diante da rainha, que o trata com bastante frieza, Blair acha que é seu dever alertá-la sobre o perigo que pesa sobre a imagem da monarquia caso insista em ignorar a dor do povo por Diana. Isto acaba mudando mesmo a atitude da família real, que a contragosto organiza um funeral público, mais uma vez um grande evento coberto pela mídia, como tudo o que dizia respeito à Diana.
Este é o grande eixo do filme: a disputa velada de poder entre Blair e a soberana e o conflito entre modernidade e tradição na família real.
Mas o roteiro de Peter Morgan mostra inteligência e ironia para explorar bem mais do que isso. A rainha, que já viu passar outros dez primeiros-ministros pelo cargo, sabe o quanto a sua lua-de-mel com o povo pode ser breve e deixa isso claro a Blair durante um encontro.
Nada mais profético já que, depois de três mandatos, o primeiro-ministro, que caiu em desgraça diante da opinião pública inglesa, agora prepara-se mesmo para sair. Enquanto a rainha, claro, continua como sempre em seu trono.
Reuters