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| Cena do filme |
É surpreendente a boa forma do veterano diretor francês Alain Resnais. Aos 85 anos, o autor de Hiroshima Meu Amor (1959), Ano Passado em Marienbad (1961) e Providence (77), não pára de filmar. E realiza em Medos Privados em Lugares Públicos um filme sobre a procura afetiva e a solidão.
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Esta é a segunda adaptação de Resnais a partir de uma peça do dramaturgo inglês Alan Ayckbourn. Os dois se conheceram em 1989, quando Resnais foi descoberto pelo autor na platéia de uma de suas peças, em seu teatro na cidade de Scarborough, onde Resnais já estivera como espectador algumas vezes antes, sem ser notado.
A partir daí, a amizade estreitou-se a ponto de Ayckbourn e sua mulher terem sido testemunhas do casamento de Resnais com a atriz Sabine Azéma - que aconteceu lá mesmo, em Scarborough, em 1997.
Resnais é um grande admirador da obra do dramaturgo, que já escreveu 70 peças e é considerado, aos 68 anos, um dos autores ingleses mais encenados nos palcos. Sua primeira peça a tornar-se filme do cineasta francês foi Intimate Exchanges, base de Smoking, No Smoking (1993). Naquele filme, Resnais quis tanto ser fiel à atmosfera de Scarborough que importou de lá toda a cenografia, inclusive tecidos de decoração.
Já em Medos Privados em Lugares Públicos, Resnais reduziu de 54 para seis os personagens da trama, além de transplantá-la de Londres para Paris.
No bar de um grande hotel cinco estrelas, o garçom Lionel (Pierre Arditi) escuta todos os dias as histórias de um cliente assíduo, Dan (Lambert Wilson).
Ex-militar, Dan tem problemas para encontrar um novo emprego, o que torna cada dia mais instável seu relacionamento com a noiva Nicole (a italiana Laura Morante, de O Quarto do Filho).
Nicole está ansiosa para mudar de apartamento e para isso procura um corretor de imóveis, Thierry (André Dussollier). Mas o gentil corretor não consegue satisfazer a cliente. No escritório, Thierry divide o espaço com a secretária Charlotte (Sabine Azéma), de longe a personagem mais excêntrica da trama. Cristã fervorosa, ela empresta ao colega de trabalho algumas fitas de vídeo, onde gravou trechos de seu programa religioso favorito. Ao assisti-los, Thierry tem uma enorme surpresa.
A ligação com Lionel é feita quando Charlotte começa a tomar conta de seu pai doente à noite, período em que o garçom precisa sair para o trabalho. E a irmã de Thierry, a solitária Gaëlle (Isabelle Carré), acaba cruzando o caminho de Dan. Dessa maneira, todas as vidas destes personagens são entrelaçadas. Entre eles, há desejos não correspondidos, relacionamentos interrompidos e uma série de mal-entendidos.
Há um doce encanto nestes solitários, todos de classe média, pessoas que trabalham para ganhar o próprio sustento, uma preferência que vem do dramaturgo Ayckbourn. Resnais também prefere pessoas de carne e osso, que se tem a sensação de já ter encontrado alguma vez na rua, no metrô, num bar.
Reuters