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| Cena do filme |
Assim como o diretor brasileiro Fernando Meirelles afirmou na primeira sessão para a imprensa de Ensaio Sobre a Cegueira, adaptação para as telonas do romance do escritor português Jose Saramago, o filme não tem nada de 'hollywoodiano', como andavam anunciando. O drama é um retrato cru, incômodo e parado de uma epidemia de cegueira que atinge, aos poucos, toda a população mundial.
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O filme tenta agradar o público que leu o romance e assim não dá as cartas de uma grande produção, pelo contrário: se esquiva dos valores estéticos, usa telas brancas para retratar a cegueira e abusa da luminosidade.
Tudo perturba em Ensaio Sobre a Cegueira e essa deve ser a maior arma contra o projeto, que corre o risco de cair no ostracismo se não alcançar pelo menos um pouco de atenção quando estiver nas salas de cinema.
A história começa em uma cidade fictícia, no meio do trânsito. Um homem japonês (Yusuke Iseya) perde a visão enquanto dirige, mas ao visitar o oftalmologista (Mark Ruffalo), descobre que não há nada de errado com seus olhos. Momentos depois, uma prostituta (Alice Braga), também paciente do mesmo médico, fica cega após visitar um cliente.
Como num efeito dominó, todos os personagens envolvidos nesta atmosfera são tomados pela cegueira. Neste cenário de desespero, a mulher do médico (Julianne Moore) ainda se mostra imune à doença, mas finge ter perdido a visão para acompanhar o marido numa quarentena montada pelo governo. Eles são levados a um sanatório abandonado, que cada dia recebe mais pacientes. Aos poucos, as peças vão se encaixando: todos ali tiveram uma relação, o que, a princípio, parece ser a causa da epidemia.
O que Meirelles retrata a partir de então é a batalha absurda desses personagens por sobrevivência. Única capaz de enxergar, a personagem de Julianne Moore é quem guia as vítimas neste cenário de horror, mas demora a agir quando a situação toma proporções políticas e violentas.
O diretor não poupa o espectador em nenhum momento - exceto na cena do estupro, retirada da versão original. Mostra a "nojeira" em que o sanatório se torna. O chão é tomado por urina, fezes, roupas sujas, sangue, papel higiênico. As imagens dos cegos nus chocam os mais puritanos. Assim o filme toma força.
Julianne Moore mostra novamente sua competência como atriz, assim como Alice Braga, que, se em Cinturão Vermelho e Eu Sou a Lenda não mostrou muito seu talento, agora comove como a prostituta que cria sentimentos maternais a um menino (Mitchell Nye).
Quem conhece a cidade de São Paulo - onde quase todas as externas foram rodadas - verá que a ambientação foi impecável. Com auxílio de pouquíssimos efeitos, conseguiram transformar a maior cidade do País em um depósito de lixo, delirante, decadente e inóspita. Fica difícil acreditar que não utilizaram estúdios para criar a metrópole fictícia.
Apesar dos elogios, engana-se quem pensa que Ensaio Sobre a Cegueira é um filme com potencial para alcançar um grande número de fãs, mesmo fugindo dos padrões óbvios.
Ensaio Sobre a Cegueira é um drama tenso que envolve o colapso urbano, mas jamais remete a outros filmes com o mesmo tema, como o recente Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan. Com toques dosados de humor, tragédia e muitos diálogos costurados, Meirelles construiu um drama que dificilmente ganhará expressão popular. Assim, o legado de Saramago continua imune, para a alegria de seus leitores.
Danilo Lima
Redação Terra